Checagens apontam informações falsas e imprecisas sobre segurança pública, armas, economia e tarifaço. Acusações sem comprovação também foram usadas pelo candidato do PL para atacar o presidente.
O primeiro debate presidencial do segundo turno, realizado neste domingo (18), na Band, foi marcado pela disseminação de informações falsas e distorcidas por Flávio Bolsonaro (PL) para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Levantamentos de checagem de fatos identificaram declarações incorretas sobre segurança pública, armamento, economia e relações internacionais, além de acusações sem comprovação contra Lula e sua família.
De acordo com levantamento do Ranking dos Políticos, das 29 declarações verificáveis de Flávio Bolsonaro examinadas, 16 apresentaram problemas: três foram classificadas como falsas e outras 13 como imprecisas. As verificações da Agência Lupa e do Aos Fatos também contestaram afirmações feitas pelo candidato durante o confronto.
O episódio evidencia o uso da desinformação como instrumento de disputa política, com números apresentados fora de contexto e acusações graves que não encontram sustentação nas evidências disponíveis.
Segurança pública: discurso de medo contraria dados
Entre as declarações falsas de Flávio está a afirmação de que o Brasil vive um recorde de criminalidade sob o governo Lula. Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, no entanto, apontaram que o país registrou, em 2025, a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica, em 2012.
Isso não significa que a violência esteja superada. O Brasil continua enfrentando graves problemas de segurança pública e registrou recorde de feminicídios. Mas os dados não sustentam a generalização feita pelo candidato do PL.
Também foi classificada como falsa a alegação de que o governo Lula coloca criminosos perigosos nas ruas simplesmente por falta de vagas nas prisões. A legislação não prevê soltura automática nessas circunstâncias: mudanças no regime de cumprimento da pena dependem de decisão judicial e do atendimento a requisitos legais.
Flávio nega números sobre armas e munições do governo Bolsonaro
Outro momento do debate envolveu os números de armas e munições liberadas durante o governo Jair Bolsonaro. Flávio contestou os dados apresentados por Lula e acusou o presidente de mentir.
As informações, porém, existem. O arsenal registrado de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs) ultrapassou um milhão de armas. Levantamento do Instituto Sou da Paz também contabilizou aproximadamente 994 milhões de munições comercializadas durante o período.
A tentativa de negar esses números não elimina os registros que documentam a expansão do armamento durante a gestão anterior.
Tarifaço de Trump: candidato omite negociações do governo brasileiro
Flávio também afirmou que o governo brasileiro não enviou representantes aos Estados Unidos para defender as empresas prejudicadas pelas tarifas impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump. A declaração foi classificada como falsa.
O vice-presidente Geraldo Alckmin participou das negociações comerciais com autoridades dos Estados Unidos, enquanto o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, esteve em Washington para encontros diplomáticos. Uma comitiva de senadores brasileiros também viajou ao país.
Ao mesmo tempo, o candidato do PL negou a responsabilidade de aliados políticos pela crise comercial. As checagens apontaram que a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e a relação estabelecida por Trump entre medidas comerciais e o processo judicial contra Jair Bolsonaro são elementos relevantes para compreender o episódio. Não há, contudo, comprovação de que Eduardo tenha solicitado especificamente a imposição das tarifas.
Acusações contra Lula sem comprovação
O debate também foi marcado por acusações envolvendo Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Flávio repetiu a alegação de que um suposto áudio do banqueiro revelaria um pagamento clandestino de R$ 30 milhões ao Instituto Lula para financiar um documentário sobre o presidente.
A Agência Lupa classificou a acusação como insustentável. Segundo a checagem, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República negaram a existência do depoimento atribuído a Vorcaro, e não foram apresentados comprovantes dos supostos pagamentos. O material mencionado também não aparece nas propostas formais de delação examinadas pela imprensa.
Outra afirmação contestada foi a de que Lula e a primeira-dama Janja teriam gastado R$ 7 bilhões em viagens. Segundo o Aos Fatos, o número divulgado corresponde a despesas de viagens de diferentes órgãos federais, e não a gastos pessoais do presidente e de sua esposa.
No caso das suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, e Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, a checagem apontou que a investigação citada não havia identificado pagamentos diretos na análise mencionada. Não há conclusão definitiva que sustente a acusação apresentada como fato consumado.
Flávio também atacou José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula e vice-presidente do Sindnapi. Embora a entidade seja investigada, Frei Chico não era alvo direto da apuração mencionada, e não há condenação que permita atribuir a ele os crimes investigados.
Números fora de contexto sobre economia e governos do PT
As distorções também alcançaram a economia. Flávio apresentou a dívida pública de aproximadamente R$ 11 trilhões como um recorde absoluto, sem considerar sua proporção em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Nesse indicador, o pico de 87,6% ocorreu em 2020, durante o governo Jair Bolsonaro.
O senador também atribuiu ao pai a garantia do Bolsa Família de R$ 600. O valor foi pago em 2022, mas o aumento tinha caráter temporário, com encerramento previsto para dezembro daquele ano. A continuidade do benefício foi viabilizada pela PEC da Transição.
Outra distorção foi afirmar que o PT governou o Brasil durante 20 dos últimos 24 anos. Considerados os mandatos de Lula e Dilma Rousseff desde 2003, o partido esteve na Presidência por aproximadamente 17 dos últimos 24 anos.
Flávio ainda voltou a citar as condenações de Lula por corrupção sem mencionar que elas foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2021. Por isso, essas condenações não permanecem juridicamente válidas.
Debate reforça a importância do combate à desinformação
Durante o confronto, Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir os sigilos bancários e telefônicos dos dois candidatos e de seus familiares antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro. Flávio respondeu que não tinha nada a esconder, mas não confirmou que aceitaria a proposta.
O levantamento do Ranking dos Políticos também identificou declarações problemáticas de Lula: das 47 falas examinadas, nove foram classificadas como falsas, 23 como imprecisas e 15 como verdadeiras. Os números consideram apenas as afirmações factuais selecionadas para verificação.
Ainda assim, o conjunto das checagens evidencia um dado central do debate: 16 das 29 declarações verificáveis de Flávio Bolsonaro não passaram integralmente pelo confronto com os fatos.
Em uma disputa eleitoral decisiva para os rumos do país, a população tem o direito de receber informações corretas, contextualizadas e verificáveis. A disseminação de acusações sem provas e a manipulação de números comprometem o debate democrático e dificultam que os eleitores avaliem propostas e responsabilidades com base na realidade.


