Vídeo de Nikolas Ferreira chegou a 160 milhões de visualizações, e Justiça Eleitoral cobra explicações da empresa. CTB defende transparência, liberdade de expressão e combate ao favorecimento político nas plataformas digitais.
A extrema direita ganha megafone nas redes sociais, enquanto setores progressistas denunciam restrições e dificuldades para fazer suas mensagens chegarem à população. Essa desigualdade no ambiente digital voltou ao centro do debate após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinar que a Meta, dona do Instagram e do Facebook, explique, em até 12 horas, o alcance extraordinário de publicações de Nikolas Ferreira, Pablo Marçal, Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar.
A decisão, assinada pelo ministro Ricardo Villas Bôas Cuevas nesta quinta-feira (22), atende a um pedido da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que questiona uma possível amplificação algorítmica de conteúdos da oposição durante o segundo turno das eleições de 2026.
Se o algoritmo é neutro, como afirma a empresa, que mostre os números. A pergunta é simples: quais mecanismos fazem determinados conteúdos políticos explodirem em visualizações enquanto outras vozes, inclusive as que defendem direitos trabalhistas, justiça social e democracia, enfrentam dificuldades para alcançar o público?
Para a classe trabalhadora, não se trata de uma discussão técnica distante da realidade. As redes sociais se tornaram espaços centrais de informação, mobilização e disputa política. Quando seus algoritmos distribuem visibilidade de maneira desigual, o impacto pode atingir diretamente o debate democrático.
160 milhões de visualizações: alcance impressionante exige explicações
O principal foco da investigação é um vídeo publicado por Nikolas Ferreira no Instagram em 20 de outubro, intitulado “O Nordeste que foi esquecido”. A gravação reúne depoimentos de moradores da região que criticam o governo Lula e manifestam apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
De acordo com a campanha petista, o vídeo alcançou 12 milhões de visualizações em apenas 30 minutos, 50 milhões em três horas e 103,2 milhões em nove horas. Posteriormente, o conteúdo teria chegado a 160 milhões de visualizações.
Os números levantam questionamentos sobre a velocidade e a dimensão da distribuição do material. A campanha argumenta que o desempenho supera o registrado por grandes contas globais do Instagram em 2026 e pede esclarecimentos sobre uma possível amplificação algorítmica.
Não é possível concluir, apenas pelos números, que houve favorecimento deliberado da Meta. Mas também não é aceitável que uma empresa que concentra tanto poder sobre a circulação de informações se limite a explicações genéricas quando a Justiça exige transparência.
O problema não é a extrema direita ter voz. É saber se todos têm as mesmas condições de serem ouvidos.
A quem serve o algoritmo?
A Meta afirma que o alcance depende do engajamento dos usuários, como curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações. Segundo a companhia, conteúdos que despertam mais interação podem ser recomendados para públicos maiores, mesmo quando publicados por contas com menos seguidores.
Mas essa explicação não encerra o debate. Os próprios sistemas de recomendação ajudam a determinar quais conteúdos serão apresentados a novos públicos, e a Justiça Eleitoral quer saber como esse processo ocorreu nos casos investigados. A pergunta que precisa ser respondida é se os critérios de distribuição são aplicados de maneira transparente e consistente, sem privilégios políticos ou restrições indevidas.
Enquanto a extrema direita utiliza as redes para disseminar suas narrativas, sindicatos, movimentos populares e organizações progressistas também dependem dessas plataformas para denunciar ataques a direitos, combater a desinformação e mobilizar trabalhadores. Eventuais limitações injustificadas ao alcance desses conteúdos precisam ser investigadas com a mesma seriedade.
Não dá para vender a imagem de uma praça pública digital e, ao mesmo tempo, deixar suas regras escondidas nas mãos de bilionários da tecnologia.
Liberdade de expressão não pode ter lado
A CTB defende a liberdade de expressão, a pluralidade política e o direito da classe trabalhadora à informação. Esses princípios não combinam com mecanismos opacos que possam favorecer determinados grupos ou silenciar vozes críticas. A democracia não exige que todas as publicações tenham o mesmo número de visualizações. Exige, porém, que as regras de distribuição sejam transparentes, que não haja discriminação política indevida e que eventuais abusos possam ser fiscalizados.
Por isso, é fundamental investigar tanto as suspeitas de amplificação desproporcional de conteúdos bolsonaristas quanto as denúncias de restrições a publicações progressistas. A apuração precisa se apoiar em dados verificáveis, e não apenas nas declarações da empresa ou nas acusações de seus críticos.
A decisão do TSE prevê multa de R$ 100 mil por hora de atraso caso a Meta descumpra a determinação. A companhia deverá informar a origem das visualizações, a proporção de acessos de seguidores e não seguidores, o número de contas alcançadas e os mecanismos de distribuição envolvidos.
A Meta nega oferecer tratamento preferencial a políticos. Agora, precisa apresentar os esclarecimentos exigidos pela Justiça.
A democracia não pode ficar refém de algoritmos secretos. Se a Meta não favorece ninguém, que prove. Se restringe conteúdos de forma injusta, que explique. E, se houver favorecimento político, que seja responsabilizada. A liberdade de expressão não pode ser ampla para a extrema direita e estreita para quem luta por direitos, igualdade e justiça social.


