Temperaturas aumentam mais rápido que a adaptação ao clima e impulsionam reivindicações por condições dignas no trabalho

Trabalhadoras e trabalhadores enfrentam verões cada vez mais escaldantes e, muitas vezes, o calor começa antes mesmo do relógio marcar o início da jornada. Ele está no pavilhão industrial, no asfalto, na sala de aula lotada, no ônibus sem ar-condicionado. Uma realidade ainda pouco regulamentada e que cada vez mais aparece nas lutas por melhores condições de trabalho.
“Nos dias de verão é insuportável, e olha que já melhorou”, resume o metalúrgico Gildo da Silva da Cruz, que trabalha há quase 25 anos na Galvânica Bereta, em Nova Santa Rita (RS). “A gente trabalha perto de uma cuba de zinco a 450 graus. No verão, mesmo com ventiladores, é muito quente. O pessoal passa mal, tem problema de pressão.”
Para o entregador Tálisson Vieira, o calor acompanha cada quilômetro rodado sobre a moto no Vale do Paranhana, fazendo entregas de botijões de gás. “Nos dias de verão forte, eu passo muito protetor solar. Preciso usar calça e coturno obrigatoriamente. Entre uma entrega e outra, vou me hidratando e tentando me manter vivo.”
Até o deslocamento para quem depende de transporte coletivo para ir até o trabalho é um desafio, ainda mais quando o ônibus não tem climatização. O professor Leandro de los Santos enfrenta mais de meia hora para chegar na escola municipal em que leciona em Porto Alegre e descreve o retorno para casa como um teste diário de resistência. “Na volta, por vezes, é uma viagem insalubre. Nos dias de maior calor é uma questão de saúde pública. Não ter ar-condicionado nos ônibus é reduzir o ser humano a gado.”

Essas rotinas são distintas, mas descrevem um mesmo fenômeno: o calor deixou de ser apenas desconforto e passou a interferir diretamente no corpo e no bem-estar de quem vive da própria força de trabalho. Em fábricas, nas ruas, no transporte público e nas escolas, trabalhadores e trabalhadoras relatam que as altas temperaturas impõem limites físicos, provocam adoecimentos e tornam o cotidiano laboral mais exaustivo.
Conforto térmico: quando a exigência não é para pessoas
Enquanto a classe trabalhadora enfrenta essas condições, outros corpos no sistema produtivo recebem tratamento distinto. Na avicultura industrial, o conforto térmico é uma exigência essencial. O frango de corte é mantido, em média, entre 20 e 24 graus Celsius, faixa considerada ideal para seu desenvolvimento fisiológico. Sensores monitoram temperatura e umidade de forma contínua, e sistemas de ventilação, exaustão e resfriamento entram em operação automática ao menor problema. O estresse térmico do animal é tratado como falha grave, capaz de reduzir o ganho de peso, aumentar a mortalidade e gerar prejuízo econômico. O conforto térmico, neste ambiente, não é opcional: é obrigatório.
O ser humano, por sua vez, também depende de condições térmicas muito semelhantes às do frango para exercer o trabalho de forma segura, saudável e eficiente. A partir de estudos em ergonomia e fisiologia do trabalho, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) indica que o conforto térmico do trabalhador deve situar-se, em média, entre 20 e 23 graus Celsius. Fora dessa faixa, o organismo passa a direcionar energia para regular a própria temperatura, o que se traduz em fadiga precoce, perda de concentração e maior risco de acidentes. O calor excessivo passa a produzir efeitos objetivos sobre a saúde e a segurança do trabalhador.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 2,41 bilhões de trabalhadores e trabalhadoras (o equivalente a 71% da força de trabalho global) estão expostos aos riscos do calor excessivo, problema que resulta em 22,9 milhões de lesões e 18.970 mortes por ano no mundo. Em atividades como construção civil, trabalho rural e indústria, jornadas são cumpridas sob temperaturas que frequentemente ultrapassam os 35 °C e, em alguns casos, chegam a níveis superiores a 40 °C.
Ainda assim, enquanto o conforto térmico do frango aciona tecnologia, protocolos rígidos e respostas imediatas, o do trabalhador é tratado como algo adaptável. O calor vira “parte do serviço”, “coisa de verão”, “problema de quem não aguenta”. Quando um adoece, outro ocupa o lugar, porque garantir conforto térmico implica investimento em climatização, pausas, redução de jornada e readequação do ritmo produtivo. Custos frequentemente evitados.
Quando o corpo não aguenta
Na metalurgia, essa contradição aparece de forma explícita. Gildo da Silva da Cruz descreve um ambiente onde o calor industrial se soma às altas temperaturas do verão e à presença constante de produtos químicos. “Imagina tu trabalhar ao redor de uma cuba de zinco num pavilhão que deve ter uns 180 metros de comprimento”, diz.
Ventiladores foram instalados e, se não fossem eles, “ninguém aguentaria dentro do pavilhão”. Mas, segundo ele, nem sempre resolvem, pois não podem ficar para o lado da cuba, para não esfriar. “Às vezes atrapalham, porque puxam os produtos químicos de volta para dentro. A empresa toda tem desengraxante, ácido muriático, cloreto de amônia, bicromato.”
Atualmente atuando na rua, operando um pórtico de carregamento, ele afirma que o trabalho externo é ainda mais desgastante. “Além do asfalto quente no chão, o material galvanizado aquece muito. Tu não consegue encostar a mão sem luva, de tão quente. Acho que passa muito acima de 50 graus ali perto.”

Como membro da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa), Cruz diz que as queixas se acumulam entre os colegas. “A gente recebe muita reclamação. Coloca em ata sobre o calor. Tinha um projeto de exaustão que não foi seguido. No verão é terrível.”
Calor como pauta sindical
Na avaliação do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas e Nova Santa Rita, Paulo Chitolina, a realidade é desigual nas diferentes empresas. “Tem fábricas com ar-condicionado, mas tem empresas pequenas em que, às vezes, nem água gelada têm. Ainda precisa melhorar muito essa questão de o empresário ter a visão de que, dando condições melhores de trabalho, o trabalhador produz mais.”
Ele afirma que o sindicato tenta incluir o tema nas convenções coletivas. “A gente estimula esse debate nas campanhas salariais. Quando não há água ou ventilador, os trabalhadores vão para cima das empresas, isso tem feito com que eles cobrem cada vez mais.”
Chitolina destaca que trabalhadores de empresas menores têm medo de denunciar. “Muitos trabalham direto com o dono, em oficinas e fábricas pequenas. Às vezes nos contatam e reclamam, mas pedem sigilo. A gente vai no local sem identificar a denúncia.”
Entre ventilação e limites
No setor calçadista, a realidade varia entre empresas. A trabalhadora Roseli Marques da Rosa, encaixotadora na Via Marte, em Nova Hartz, afirma que o calor é um problema recorrente no ramo. “Embora a empresa onde trabalho seja bem ventilada, é importante lembrar que a segurança e o conforto dos trabalhadores devem ser sempre a prioridade. Mesmo com a ventilação, é crucial garantir que todos estejam protegidos contra o calor excessivo.”
Para ela, a crise climática torna urgente a adaptação das empresas. “Medidas como climatização, pausas regulares e equipamentos de proteção são essenciais. Devemos continuar lutando por condições de trabalho mais seguras e justas.”
A avaliação da trabalhadora é compartilhada pela direção sindical. A vice-presidente do Sindicato dos Sapateiros de Sapiranga, Romilda Guntzel, afirma que o calor excessivo se tornou pauta permanente. “Atuamos desde a negociação direta com os empregadores até a negociação coletiva. Monitoramos as condições de trabalho e, se não temos retorno, denunciamos.”
Segundo ela, houve avanços, mas ainda insuficientes. “Empresas maiores têm climatizador, mas com máquinas ligadas o calor aumenta muito. Em fábricas com mais de 2 mil trabalhadores, os bebedouros não dão conta. A água não fica tão gelada.”
“Essa questão climática e também o calor na indústria, ela é bastante forte, estamos já dialogando com a indústria, cobrando sobre a climatização”, complementa o presidente da Federação Democrática dos Sapateiros do RS, João Batista Xavier da Silva. Segundo ele, há empresas que já possuem ambientes com ar-condicionado, “mas é pouco”.
O dirigente reitera que a climatização já entrou na pauta de negociação. “No ano passado foi para mesa de negociação essa questão do calor. É uma das coisas que nós vamos ter que avançar na convenção coletiva. Estamos brigando com a patronal porque temos que ter uma solução para essa questão do calor dentro das empresas.”
Calor nas ruas e no transporte
Para quem trabalha ao ar livre, o calor não oferece trégua. Tálisson Vieira conta que, apesar de ter acesso à água no atual emprego, a realidade muda conforme o vínculo. “Quando eu era entregador da iFood, em Porto Alegre, não tínhamos praticamente nada de apoio. Cheguei a organizar uma parada na avenida Borges de Medeiros porque nos cobravam valores absurdos.”
Hoje ele mora em Parobé e entrega gás em municípios da região. “Meu horário de serviço é das 9h às 13h e depois das 19h às 22h, com uma folga por semana. Enfrento as intempéries do tempo durante meu dia de serviço, chuva, sol, raios, seja o problema que for, o gás não pode parar. Uso muito protetor solar, mas tenho problema com roupa, preciso obrigatoriamente usar calça e coturno pra poder entregar o gás.”

No transporte coletivo, o professor Leandro de los Santos destaca que o impacto do calor vai além do desconforto físico. “A demora, a falta de ar-condicionado e o preço da passagem pioram não só a saúde física, mas também a mental. O estresse aumenta.”
Ele conta que onde leciona, na Escola Municipal de Educação Infantil Moradas da Hípica, apenas duas salas têm ar-condicionado. “Sala de aula sem ar-condicionado é barbárie. Os alunos se agitam. Ficamos como animais numa câmara quente.”
Para Santos, é “imprescindível” levar em conta a questão do calor para a dignidade do trabalhador. “Ar-condicionado é uma questão de dignidade, saúde, bem-estar físico e psíquico. Se os locais de trabalho dispusessem de espaços para descanso e pequenos cochilos, seria o mais humanamente adequado.”
O que diz a legislação
Do ponto de vista da legislação trabalhista, o ordenamento jurídico brasileiro apresenta lacunas significativas quando se trata dos impactos do calor extremo nas condições de trabalho. Em um contexto de intensificação das ondas de calor, impulsionadas pela crise climática, cresce o debate sobre a suficiência das normas existentes para garantir conforto térmico, saúde e segurança a trabalhadores expostos a altas temperaturas.
Segundo o advogado do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários) Antônio Vicente Martins não há previsão explícita na legislação trabalhista que trate diretamente do impacto do calor extremo. “O que existe são regras genéricas sobre o ambiente laboral, que determinam a observância de condições mínimas de saúde e segurança, mas sem qualquer vinculação específica às mudanças climáticas ou à exposição prolongada a temperaturas elevadas.”

“Evidente que existem normas relacionadas ao ambiente de trabalho que estabelecem limites de calor, mas essas exigem apuração pericial e, em geral, resultam apenas no pagamento de adicional de insalubridade para o trabalhador atingido”, explica Martins. No caso do trabalho externo, ele destaca que não há previsão legal específica, o que obriga a construção de argumentos doutrinários e jurídicos para sustentar a defesa dos trabalhadores expostos.
Para ele, a ausência de normas claras limita a atuação do Estado. Martins destaca que não há um aparato efetivo que garanta condições adequadas aos trabalhadores submetidos ao calor extremo diante de ondas de calor cada vez mais frequentes e insuficiência na fiscalização e responsabilização dos empregadores. Ele ressalta ainda que essa fragilidade normativa se estende a outras situações climáticas adversas: “É importante destacar que também não há previsão normativa para a proteção de trabalhadores expostos ao frio extremo em situações de trabalho externo”.
Na avaliação do advogado, a construção de soluções passa, necessariamente, pela atuação sindical. Martins defende que o tema seja incorporado às normas coletivas, com condições ajustadas por meio da negociação entre sindicatos e empregadores. Além disso, ele aponta a necessidade de previsão legal específica para a adequação das condições de trabalho em situações de calor extremo e de exposição direta ao sol.
Adoecimento por exposição ao calor
Entre as medidas possíveis, cita o fornecimento de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como camisetas com proteção solar, protetor solar adequado, intervalos regulares para hidratação e a redução da jornada em dias de calor intenso. Para ilustrar a desigualdade de tratamento, ele faz a seguinte comparação: “Se jogadores de futebol profissional são protegidos em dias de calor com intervalos para hidratação durante a prática esportiva, por que os trabalhadores expostos ao mesmo calor não têm esse direito? Por que o sorveteiro, o segurança à beira do campo ou outros trabalhadores em ambientes abertos não têm acesso a esses intervalos?”
No serviço público já começaram a aparecer medidas para enfrentar a questão. É o caso de Porto Alegre, que aprovou um Projeto de Lei que estabelece medidas de proteção à saúde e à segurança de trabalhadores que atuam ao ar livre durante períodos de calor extremo. De autoria do vereador Giovani Culau (PCdoB), a proposta garante a suspensão das atividades nesses dias sem prejuízo salarial e reforça a obrigação do poder público de adotar condições adequadas de trabalho frente ao agravamento da crise climática.

Enquanto isso, trabalhadores da iniciativa privada seguem com pouca garantia. Martins destaca o papel da advocacia trabalhista nesse cenário. Segundo ele, os advogados são fundamentais para formular ações judiciais que relacionem o adoecimento dos trabalhadores à exposição ao calor ou às consequências das mudanças climáticas. Ele exemplifica com casos de trabalhadores de rua que, sem equipamentos de proteção adequados, desenvolvem câncer de pele.
“Não tenho dúvida de que esse trabalhador deve ser indenizado pela empregadora. O trabalho é causa ou concausa do adoecimento, e a doença foi adquirida por omissão do empregador”, afirma.
Para Martins, a discussão sobre calor extremo no mundo do trabalho converge, em última instância, para um princípio fundamental: a dignidade do trabalho.
A luta diante do aquecimento global
O presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT-RS), Amarildo Cenci, pontua que o desconforto térmico se tornou recorrente em diferentes categorias. “Vai desde as fábricas propriamente ditas, mais clássicas, dessa área de calçado, da metalurgia, das escolas ─ escolas estaduais do Rio Grande do Sul, muitas escolas municipais que não tem ar-condicionado instalado. Também dos trabalhadores de aplicativos, entregadores, que tem nas bikes ou mesmo a pé o seu instrumento de trabalho.”
Segundo ele, o tema começa a ganhar centralidade no movimento sindical. “Nós temos desenvolvido discussões dentro da CUT. Alguns sindicatos já colocam reivindicações nesse sentido, de maior conforto no ambiente de trabalho. Isso tem que virar política pública, a ser pensada nas discussões que ocorrerão em 2026.”
Na avaliação de Cenci, o avanço do aquecimento global impõe novos desafios à organização da classe trabalhadora. “É uma nova reivindicação que se coloca, fruto dessas alterações que estamos sofrendo. A luta agora também é pelo direito de trabalhar sem adoecer.”
Com informações: Brasil de Fato


