O debate sobre a redução da jornada de trabalho sem redução de salários, com o fim da escala 6×1, ganhou um novo impulso com a decisão do presidente Lula de apoiar vigorosamente esta bandeira histórica da classe trabalhadora.
Conforme nota o site InfoManey, a proposta, que já passou pelo crivo da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e tende a ser aprovada em plenário ainda no primeiro semestre, “ganha tração política” neste ano eleitoral e divide opiniões e “estudos técnicos”.
A retomada dos trabalhos no Congresso colocou a revisão da jornada de trabalho no centro da agenda política do governo em 2026, observa a jornalista Marina Verenicz. “Defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como uma das prioridades do ano, a proposta de extinguir a escala 6×1 sem redução salarial passou a ser lida pelo mercado [NR: leia-se empresariado] não apenas como um debate trabalhista, mas como um risco fiscal e econômico com potencial de impacto direto sobre emprego, produtividade e crescimento.”
“No Mapa de Risco, novo programa de política do Infomoney, que foi ao ar nessa sexta-feira (6), analistas apontaram que a discussão ganhou tração justamente no momento em que o calendário eleitoral passa a influenciar o comportamento do Congresso”.
“Essa é possivelmente a última eleição do presidente Lula. O PT deve usar a campanha para tentar se reconectar com pautas muito sensíveis à sua base eleitoral, especialmente a dos trabalhadores”, afirmou a analista de política da XP, Bárbara Baião.
Luta de classes
Do ponto de vista técnico, o debate é marcado por leituras opostas. A divergência entre os diagnósticos traduz, na realidade, a contradição entre os interesses do capital, que não admite reduzir as margens de lucro, e os assalariados, que com toda razão consideram a escala 6×1 uma jornda de trabalho doentia e escravizante.
O choque de ideias e diagnósticos, no caso, é expressão da luta de classes na esfera ideológica.
Uma nota do Centro de Liderança Pública [refletindo ideias e interesses do capital] estima que o fim da escala 6×1 poderia resultar na perda de mais de 600 mil empregos formais, com queda relevante de produção, especialmente em setores como comércio, agropecuária e construção. Já estudos citados por defensores da proposta apontam efeito inverso, com geração de vagas e aumento da massa salarial.
Segundo um levantamento feito pelo Dieese, que advoga as causas da classe trabalhadora, a redução da semana de trabalho de 44h para 40h semanais tem o potencial de gerar 3,6 milhões de novos postos de trabalho formal e a redução para 36h geraria 8,8 milhões de postos com possível massa adicional de R$ 9,2 bilhões em salários.
Para a analista de política da XP, Bianca Lima, o ponto central é a conjuntura política favorável a pautas populares. “Se esse tema for pautado nos plenários, a chance de progresso é alta, porque é muito difícil ir contra uma pauta tão popular às vésperas da eleição”, avaliou Bianca.
Meio do caminho
A perspectiva no mercado é de que a proposta tende a ser moderada. “Não vejo espaço para uma guinada brusca, como uma jornada 4×3. O que poderia avançar é um meio do caminho, algo como 5×2, com uma discussão muito sensível sobre manutenção de salário, custo para as empresas e tempo de transição”, disse Bianca.
A oposição à redução da jornada é maior entre empresários de ramos intensivos em mão de obra, como bares, restaurantes e comércio, que têm feito um forte lobby junto ao Congresso para tentar mitigar impactos. A leitura é que qualquer redução de jornada com salário preservado implica aumento de custo [ou seja, redução dos lucros] num cenário de juros elevados e margens pressionadas.
Conjuntura eleitoral favorece trabalhadores
O timing do debate favorece os interesses da classe trabalhadora. Segundo Bárbara Baião, o próprio governo já admite que a proposta pode ganhar corpo ainda no primeiro semestre, justamente quando deputados e senadores estão mais atentos ao humor do eleitorado.
“É uma pauta muito popular e a aposta do Planalto é que haja adesão, especialmente se a relação com a presidência da Câmara seguir mais azeitada”, afirmou.
As preocupações e supostos riscos alardeados pelos ideólogos do capital não parecem ter respaldo na realidade.
A hostilidade das classes dominantes em relação às demandas do povo brasileiro é algo ancestral. Na véspera da abolição da escravidão os donos de escravos anunciaram o caos, disseram que o Brasil ia quebrar se os negros fossem libertados. Diagnóstico parecido foi difundido pela mídia burguesa em relação ao 13º Salário (“Considerado desastroso para o país um 13º mês de salário”, foi a manchete de capa de O Globo em 26 de abril de 1962). Agora assistimos a uma reprise desta conduta reacionária.
A aposta de muitas lideranças da classe trabalhadora é de que a redução da jornada sem redução de salários vai promover maior bem estar social, com uma redução do stresse (que castiga 70% dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras), mortes e doenças no ambiente de trabalho, elevando com isso a produtividade e a intensidade do trabalho, além de gerar novos postos de trabalho e redistribuir melhor os ganhos decorrentes do avanço da ciência humana e das inovações tecnológicas. Com o tempo, até o patronato vai enxergar que os impactos macroeconômicos da redução da jornada serão predominantemente positivos.
Fonte: vidaetrabalho


