Trivia Trens volta a operar linhas 11, 12 e 13 sob vigilância da CPTM após explosão, falhas graves e afastamento da concessionária; crise coloca em xeque a promessa de que a iniciativa privada entregaria um transporte melhor
O discurso de modernização e eficiência usado pelo governo Tarcísio de Freitas para justificar a entrega dos trens de São Paulo à iniciativa privada encontra um obstáculo difícil de esconder: a concessionária precisou ser afastada poucos dias depois de assumir a operação e agora retorna sob supervisão da própria CPTM, empresa pública que o modelo de privatização pretendia substituir.
A Trivia Trens começou nesta terça-feira (6) a retomar gradualmente a operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, além do Expresso Aeroporto. A volta acontece depois de uma sequência de problemas graves que provocaram caos no transporte ferroviário paulista.
A empresa havia assumido as três linhas apenas três dias antes de ser afastada pela Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp). Entre os episódios que marcaram o início da concessão está a explosão de um trem na Linha 12-Safira, que deixou a composição carbonizada e provocou transtornos aos passageiros. O resultado é emblemático: a privatização prometeu eficiência, mas foi a estrutura pública que precisou voltar aos trilhos para impedir que o sistema parasse.
A promessa era modernização. A realidade foi crise e afastamento
Quando o governo paulista levou as linhas 11, 12 e 13 à concessão, apresentou o projeto como uma grande transformação do transporte ferroviário. O contrato prevê R$ 14,3 bilhões em investimentos e concessão por 25 anos. O próprio governo afirmou que o modelo buscaria uma operação mais eficiente e com maior qualidade para os passageiros.
Mas a experiência inicial da Trivia colocou essas promessas sob forte questionamento.
A concessionária assumiu a operação e, em apenas três dias, vieram falhas graves, interrupções e problemas que atingiram diretamente a população que depende dos trens para trabalhar, estudar e se deslocar pela Região Metropolitana. A resposta foi o afastamento da empresa e o retorno da CPTM à operação. Agora, mesmo com a retomada, a Trivia não recebe imediatamente autonomia total. A empresa começa novamente pela Linha 13-Jade e pelo Expresso Aeroporto sob supervisão da CPTM. Ou seja: a empresa privada precisa ser acompanhada de perto pela companhia pública para operar um serviço que antes já era realizado pela própria CPTM.
CPTM volta a ser o “plano de segurança” da privatização
O episódio escancara uma contradição central do modelo defendido pelo governo Tarcísio.
Quando tudo funciona, a concessão é apresentada como exemplo de modernização e eficiência. Quando surgem falhas graves, porém, é a estrutura pública que precisa assumir a responsabilidade.
A CPTM terá de acompanhar presencialmente as atividades da concessionária durante o período de controle. O desempenho da Trivia será avaliado pela companhia pública e fiscalizado pela Artesp.
A previsão é que a Trivia assuma definitivamente a Linha 13 e o Expresso Aeroporto em 26 de outubro. Na mesma data, começará a operar as linhas 11-Coral e 12-Safira sob supervisão da CPTM. A transferência definitiva dessas duas linhas está prevista para 26 de novembro.
Quem paga a conta quando a privatização dá errado?
A crise também levanta uma questão que interessa diretamente aos milhões de usuários do transporte público paulista: quem arca com os prejuízos quando a concessionária não consegue entregar o serviço esperado?
O governo de São Paulo apresentou a concessão como parte do programa SP nos Trilhos, com dezenas de projetos ferroviários e grandes investimentos previstos. Mas, diante do episódio envolvendo a Trivia, a discussão não pode se limitar ao tamanho dos investimentos anunciados. É preciso perguntar sobre segurança, manutenção, qualidade da operação, condições de trabalho e responsabilidade pública. Porque transporte ferroviário não é apenas uma oportunidade de negócio. É um serviço essencial utilizado diariamente pela classe trabalhadora.
O caso Trivia vira símbolo da política de concessões
A situação da Trivia não permite afirmar, isoladamente, que todas as concessões ferroviárias tenham o mesmo resultado. Mas o episódio oferece um caso concreto para avaliar os riscos e limites do modelo.
O governo Tarcísio aposta na ampliação das concessões como estratégia para o transporte sobre trilhos. A própria administração estadual afirma que o programa SP nos Trilhos reúne mais de 40 projetos ferroviários. Por isso, o que aconteceu nas linhas 11, 12 e 13 ganha dimensão maior.Se uma concessão apresentada como solução precisa da CPTM para voltar a funcionar depois de uma crise, a população tem o direito de cobrar explicações sobre os limites desse modelo.
Para o movimento sindical, o episódio reforça a defesa de um transporte público estruturado, com investimento permanente, trabalhadores valorizados, manutenção adequada e controle público. A experiência recente deixa um alerta: não basta entregar a operação à iniciativa privada e anunciar bilhões em investimentos. É preciso garantir que o trem chegue à estação com segurança, regularidade e qualidade para quem depende dele todos os dias.
No caso da Trivia, a promessa de que a privatização traria mais eficiência começou com explosão, falhas, afastamento e retorno da CPTM. É justamente essa conta que precisa ser colocada diante da sociedade paulista quando se discute o projeto de privatizações do governo Tarcísio.


