Menina de 5 anos foi morta por disparos de fuzil em Niterói, e julgamento do policial denunciado pelo crime segue sem ocorrer. Flávio Bolsonaro atuou na defesa do PM e tentou reverter a decisão que o levaria a júri popular.
A atuação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na defesa de um policial militar denunciado pela morte da menina Ana Clara Gomes Machado, de apenas 5 anos, voltou ao centro do debate político nacional. No domingo (18), durante debate presidencial na TV Band, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou explicações do senador sobre sua participação no caso, que se soma a questionamentos sobre suas relações com milicianos e agentes de segurança ligados a organizações criminosas.
O tema também foi abordado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Em editorial publicado em 23 de setembro, o veículo alertou para o risco de a candidatura de Flávio Bolsonaro representar a “ascensão das milícias ao topo do poder da República”, destacando episódios de sua trajetória política e relações com personagens investigados ou condenados por vínculos com grupos criminosos.
A morte de Ana Clara e a tentativa de barrar o júri
Ana Clara Gomes Machado foi atingida por disparos de fuzil na porta de casa, na comunidade do Monan Pequeno, em Niterói (RJ), em 2 de fevereiro de 2021. Na ocasião, a criança estava acompanhada da mãe, Cristiane Gomes, e do irmão, de 2 anos.
O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou o então cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delaroli por homicídio com dolo eventual. Segundo a acusação, ao disparar em uma área residencial, o policial assumiu o risco de provocar a morte de alguém.
A versão inicial da Polícia Militar era de que os agentes haviam sido atacados por criminosos e reagido. Entretanto, conforme as informações divulgadas sobre a investigação, a perícia encontrou cápsulas de fuzil calibre 7,62 no local, sem munições de pistola que indicassem uma troca de tiros. O exame balístico apontou que os disparos que atingiram a menina partiram do fuzil utilizado por Delaroli.
O policial foi preso em flagrante, mas deixou a prisão em novembro de 2021 e responde ao processo em liberdade. Posteriormente, quando a Justiça já havia determinado que ele fosse submetido a júri popular, Flávio Bolsonaro passou a integrar sua defesa e assinou, em 2024, um recurso para tentar reverter a decisão.
A tentativa não prosperou no Superior Tribunal de Justiça (STJ), mas outras medidas prolongaram a tramitação do processo. Cinco anos após a morte de Ana Clara, o julgamento ainda não ocorreu. Dois júris chegaram a ser marcados para 2026, mas nenhum foi realizado. A previsão divulgada para o julgamento é 5 de maio de 2027.
Durante o debate na Band, Lula questionou Flávio sobre os motivos que o levaram a atuar na defesa do policial e a recorrer contra a decisão que o encaminhava ao Tribunal do Júri. Segundo o relato do debate, o senador não apresentou uma explicação direta para sua atuação no caso.
A família de Ana Clara segue aguardando que a Justiça julgue o acusado. Cristiane Gomes afirma que não busca vingança, mas espera que o policial seja submetido a julgamento pela morte de sua filha.
Relações com milicianos entram no debate eleitoral
O questionamento sobre a atuação de Flávio no caso de Ana Clara se soma às controvérsias envolvendo suas relações com personagens ligados às milícias do Rio de Janeiro.
No editorial citado, o Estadão retomou o caso de Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, condenado pelo Supremo Tribunal Federal por integrar uma organização criminosa ligada ao assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes. O jornal classificou como extremamente preocupante a proximidade mantida por Flávio com o miliciano.
O veículo também mencionou uma reportagem sobre a negociação de uma emenda parlamentar de quase R$ 200 mil. Em 2023, uma assessora de Flávio tratou da destinação dos recursos com Calixto. Segundo mensagens obtidas pela Polícia Federal, ele pediu ajuda ao “nosso senador”. A investigação identificou indícios de desvio de parte do dinheiro encaminhado à entidade.
Outro episódio recuperado pelo editorial remonta a 2007, quando Flávio, então deputado estadual no Rio de Janeiro, defendeu as milícias como alternativa de policiamento. Na ocasião, teria afirmado que não se importaria em pagar entre R$ 30 e R$ 40 por mês para obter mais segurança.
Em 2005, dois anos antes dessa declaração, Flávio havia concedido a Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega, ex-policial militar posteriormente apontado pelas autoridades como chefe do Escritório do Crime, grupo criminoso associado a assassinatos por encomenda no Rio.
Democracia e direitos humanos no centro do debate
Os episódios levantam questionamentos sobre os compromissos políticos de Flávio Bolsonaro com a segurança pública e sobre a proximidade de integrantes de sua trajetória política com personagens associados às milícias.
A cobrança feita por Lula durante o debate presidencial coloca em evidência uma questão fundamental: por que um candidato à Presidência da República decidiu atuar na defesa de um policial acusado de provocar a morte de uma criança e tentou reverter a decisão que o levaria a julgamento popular?
A atuação na defesa de um acusado não equivale, por si só, à comprovação de envolvimento em atividade criminosa. Ainda assim, a participação de Flávio no processo e os episódios apontados pelo Estadão exigem esclarecimentos públicos, especialmente diante da responsabilidade de quem pretende ocupar o principal cargo do país.
Para a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), a defesa da democracia, dos direitos humanos e da dignidade da população deve ser parte fundamental da construção de um país mais justo. O enfrentamento à violência e ao crime organizado exige instituições comprometidas com a legalidade, transparência e respeito à vida, especialmente nas comunidades mais vulneráveis.
Cinco anos depois da morte de Ana Clara, a família ainda espera por justiça. O caso reforça a importância de garantir que ninguém esteja acima da lei e de cobrar transparência e responsabilidade daqueles que disputam o futuro político do Brasil.
com informações: estadão e vermelho.org


