Sob a administração da Sabesp, agora privatizada, o sistema de abastecimento de água do estado de São Paulo caminha para um cenário de colapso. Em entrevista exclusiva ao Hora do Povo, o presidente da CTB-SP (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e ex-presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água e Esgoto de São Paulo), Renê Vicente, denunciou que o principal sistema de abastecimento do estado, o Cantareira, já opera em níveis semelhantes aos registrados antes da crise hídrica de 2021.
Segundo o dirigente sindical, a situação se agrava com a demissão de cerca de seis mil trabalhadores da companhia, muitos deles com 10, 20 e até 30 anos de experiência no saneamento básico. “A empresa está paralisando. Ligações simples de água ou esgoto estão demorando semanas por falta de mão de obra qualificada”, afirmou. Para Renê, esse cenário é “resultado direto da prática predatória de um monopólio privado, sem concorrência”.
Ainda de acordo com o presidente da CTB-SP, o maior investimento da Sabesp no período pós-privatização não está voltado à ampliação da oferta de água ou à segurança hídrica da população, mas sim a um contrato bilionário de R$ 3,4 bilhões com a empresa Vivo. O projeto, que começa como plano piloto em São José dos Campos, prevê a automatização dos hidrômetros por meio dos chamados “relógios inteligentes”, que permitem o corte imediato do abastecimento em caso de inadimplência.
“Com um simples comando digital, a água pode ser cortada automaticamente, sem qualquer análise da capacidade de pagamento do trabalhador, sem considerar se ele está desempregado ou inscrito no Cadastro Único”, denunciou Renê Vicente.
O dirigente alertou ainda que a Sabesp já vem adotando medidas de racionamento disfarçado, por meio do chamado “controle de pressão”, reduzindo o fornecimento de água das 21h às 7h em diversas regiões da capital e da Região Metropolitana, incluindo as zonas Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro.
Para Renê, a crise não é apenas climática, mas resultado de falta de planejamento e, sobretudo, de decisão política. “Hoje, 70% da água vai para o agronegócio, 20% para a indústria e apenas 10% para o consumo humano. Tentam culpar a população pelo desperdício, mas o debate central é como garantir que esse bem natural e direito humano chegue a todos”, afirmou.
Ele também comparou o cenário da Sabesp ao vivido pela Enel após a privatização do setor elétrico, marcada pela perda de mais de 50% da mão de obra e pela incapacidade de resposta diante de crises.
Outro ponto destacado foi o impacto direto sobre os trabalhadores e sobre a população mais pobre. Antes da privatização, a Sabesp contava com cerca de 12 a 13 mil funcionários próprios. Após três Programas de Demissão Incentivada, quase seis mil trabalhadores foram desligados, ampliando a terceirização e a precarização do serviço. Profissionais experientes, que recebiam salários em torno de R$ 8 mil, estão sendo substituídos por trabalhadores que ganham pouco mais de R$ 3 mil.
Renê também criticou o aumento das tarifas. “O governo prometeu que não haveria reajuste, mas já vimos um aumento de 6,11%. A tarifa social praticamente dobrou. O trabalhador inscrito no CadÚnico pagava cerca de R$ 26 por 10 metros cúbicos de água; hoje esse valor subiu mais de 50%”, explicou. Além disso, equipes passaram a atuar com metas diárias de corte, intensificando a suspensão imediata do fornecimento em caso de atraso no pagamento.
“Quem mais perdeu com a privatização foi a população. A maior empresa de saneamento da América Latina foi entregue a preço baixo, enquanto os lucros ficaram garantidos aos acionistas. Quando a crise apertar, quem vai pagar a conta será o contribuinte”, concluiu.


