Há quinze anos Minas Gerais se encontra no topo do ranking nacional de resgate de trabalhadores em condição análoga à escravidão no Brasil. O estado também lidera a “lista suja” do trabalho escravo, documento que divulga os empregadores que submeteram trabalhadores a condições análogas à de escravidão. A nova versão da lista, publicada no final de 2025, incluiu 159 novos nomes, 33 deles de Minas Gerais.
Dados de 2024 mostram que, dos 2 mil trabalhadores resgatados em situação de escravidão moderna no Brasil, 500 estavam no estado, a maior parte na agricultura, em especial nas lavouras de café.
Para Vilson Luiz da Silva, presidente da Fetaemg (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais), o campo ainda concentra grande parte dos casos registrados oficialmente no país, apesar dos avanços na legislação e nas ações de fiscalização do Estado.
“O enfrentamento ao trabalho escravo exige atuação permanente para conscientizar e preparar o trabalhador para defender os seus direitos para que ele não se deixe levar por falsas promessas de trabalho”, afirma. “Infelizmente, por falta de opção e pela necessidade de ter um salário, o trabalhador acaba se submetendo a condições degradantes de trabalho.”
De acordo com Vilson, a Fetaemg mantém diálogo com o Ministério do Trabalho e Emprego e com o Ministério Público do Trabalho para coibir o trabalho escravo. “O nosso compromisso é também buscar políticas públicas que garantam uma vida mais digna no campo”, diz.
Ele destaca que as negociações coletivas de trabalho têm sido um instrumento importante para garantir uma relação de trabalho justa entre empregado e empregador: “Junto com os Sindicatos de Trabalhadores Rurais, a federação é um suporte para o assalariado rural, defendendo seus direitos.”
No Brasil, o trabalho análogo à escravidão, ou escravidão contemporânea, é definido pelo Artigo 149 do Código Penal. O artigo define que o crime pode ocorrer com a presença não necessariamente simultânea de trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes de trabalho e/ou restrição da liberdade de locomoção em razão de dívida.
A punição é de reclusão de 8 a 10 anos, podendo chegar a 12 em caso de agravantes, como trabalho infantil. Mas dados compilados pela Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostram que, entre 2000 e 2025, 37% dos que responderam por violação de direitos dos trabalhadores foram absolvidos e apenas 4% foram condenados pelos crimes. A média de tempo para que as ações fossem concluídas foi de sete anos.
Valéria Morato, presidenta da CTB Minas, afirma que o cenário é de impunidade. “É claro que são necessárias ações educativas e de prevenção, assistência às vítimas, mas é essencial que haja punição para os criminosos ou os casos não vão parar de crescer”, afirma. Em 2025, o Brasil registrou um recorde de denúncias de trabalho escravo em relação à série histórica, que teve início em 2011. Foram contabilizadas um total de 4.515 denúncias, 14% a mais que em 2024, e a série apresenta alta desde 2019.
“Principalmente, precisamos superar as desigualdades”, diz Valéria. “Proporcionar à população condições dignas de vida, acesso a saúde, educação, moradia. Não é coincidência o fato de que as principais vítimas do trabalho análogo à escravidão sejam pessoas em situação de vulnerabilidade social.”
Lucratividade ilegal
Um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 2025, revelou que os ganhos indevidos com o trabalho análogo à escravidão tem aumentado no mundo. As estimativas mostram que o lucro ilegal do trabalho forçado foi de R$ 236 milhões por ano desde 2014. Esse valor corresponde ao que é injustamente apropriado pelos exploradores, ao invés de ser pago a quem trabalha. Em 10 anos, o aumento nos lucros provenientes do trabalho forçado foi de 37%.
Chacina de Unaí
O Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, celebrado em 28 de janeiro, faz referência à Chacina de Unaí. Neste dia, em 2004, quatro servidores do Ministério do Trabalho e Emprego – três auditores-fiscais do trabalho e um motorista – foram assassinados durante uma operação de fiscalização na cidade de Unaí (MG). Eles investigavam denúncias de trabalho escravo em fazendas da região.


