Dia da Visibilidade Trans: mercado de trabalho segue fechado, mas iniciativas de inclusão enfrentam a exclusão histórica

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Neste Dia da Visibilidade Trans, a realidade do mercado de trabalho brasileiro escancara uma exclusão estrutural que atinge travestis, mulheres e homens trans. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelam que, em 2023, apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente, percentual inferior ao da população em geral. Além disso, os rendimentos médios dessa população são 32% menores que a média nacional, evidenciando que a discriminação não se limita ao acesso ao emprego, mas também à valorização profissional.

A desigualdade é ainda mais profunda entre mulheres trans, cuja taxa de participação no mercado formal é de apenas 20,7%, contra 31,1% entre homens trans. Mesmo quando possuem ensino superior completo, pessoas trans recebem, em média, 27,6% menos do que trabalhadores não trans com a mesma escolaridade.

Exclusão que começa cedo e atravessa a vida

A história de Marcela Moraes, mulher transexual de 65 anos, revela como o preconceito moldou trajetórias inteiras. Moradora de São Paulo, ela nunca teve um emprego formal e hoje busca, pela primeira vez, uma colocação que garanta renda fixa e estabilidade. Para isso, está concluindo o Ensino Médio por meio do Projeto Transcidadania, da Prefeitura de São Paulo.

“A busca tardia pela educação não foi uma escolha, foi uma imposição”, relata Marcela. Excluída do mercado de trabalho nas décadas de 1980 e 1990 por ser transexual, encontrou na prostituição a única forma de sobrevivência. “Quando viam que eu era transexual, negavam o emprego. A gente nunca teve respeito perante a sociedade”, afirma.

Mesmo assim, Marcela planeja o futuro. Pretende cursar História da Arte na Universidade de São Paulo (USP) e atuar na área. “Se eu conseguir, vai ser muito prazeroso para mim”, diz, reforçando que visibilidade também é garantir o direito de sonhar.

Projetos sociais enfrentam o preconceito institucional

Diante da omissão histórica do Estado e da resistência do setor privado, projetos sociais têm sido fundamentais para enfrentar a exclusão. A plataforma TransEmpregos, criada em 2013, conecta empresas com vagas abertas a pessoas trans em busca de trabalho. Ao longo de 12 anos, cerca de 10 mil pessoas foram contratadas por meio da iniciativa.

Segundo a fundadora Maite Schneider, o projeto evoluiu da simples intermediação de currículos para o apoio direto às empresas na construção de ambientes de trabalho inclusivos. “Notamos que muitas contratações se encerravam rapidamente por falta de aceitação no ambiente laboral”, explica.

A TransEmpregos atua para que processos seletivos sejam livres de preconceito e para que a diversidade seja compreendida como valor social. “As habilidades de uma pessoa não têm relação com identidade de gênero. Há pessoas com doutorado que não conseguem emprego porque são trans. Nosso papel é fazer essa ponte”, afirma Schneider.

Preconceito, escolaridade e informalidade

A atriz e modelo Eduarda Soares, de 30 anos, está desempregada há cerca de cinco anos. Para ela, a dificuldade de inserção combina ensino incompleto e preconceito. “A gente enfrenta bastante discriminação. A realidade é muito difícil para a gente”, relata. Nascida no Maranhão, migrou para São Paulo em busca de oportunidades, mas ainda enfrenta barreiras para se reinserir no mercado.

História semelhante vive Bruna Garcia, de 44 anos, que há mais de duas décadas não consegue um emprego formal. “Quero sair das ruas aos poucos, mas não dá para parar de uma vez. A gente depende disso para se manter”, afirma. Segundo ela, o preconceito raramente é explícito, mas se manifesta em olhares, atitudes e negativas veladas.

Desigualdade regional e papel do Estado

Dados da TransEmpregos e do Ipea indicam que Sul e Sudeste concentram as maiores taxas de inserção formal, enquanto Nordeste (17,8%) e Centro-Oeste (24%) registram os piores índices. A desigualdade regional evidencia a necessidade de políticas públicas nacionais e estruturadas.

Nesse sentido, o Projeto Nacional de Empregabilidade LGBTQIAPN+, coordenado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), busca ampliar iniciativas de inclusão no mundo do trabalho. No biênio 2024-2025, o projeto capacitou 368 pessoas LGBTI+ e viabilizou 121 contratações formais.

Para o procurador do Trabalho Igor Sousa Gonçalves, coordenador nacional da Coordigualdade/MPT, o objetivo é enfrentar a exclusão histórica da população LGBTQIAPN+, promovendo inclusão social e econômica e estimulando políticas públicas e ações afirmativas.

Transfobia estrutural no mercado de trabalho

Para Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o principal obstáculo não é a qualificação profissional, mas a transfobia estrutural. “A exclusão começa na escola e se consolida na recusa de contratação. Pessoas trans enfrentam informalidade forçada, subemprego, rotatividade e assédio”, afirma.

Segundo Benevides, é fundamental a atuação direta do Estado, com ações afirmativas, reserva de vagas, estímulo à contratação com garantia de direitos e fiscalização rigorosa contra práticas discriminatórias. “Sem políticas estruturadas, a empregabilidade seguirá sendo uma promessa vazia”, alerta.

Visibilidade é trabalho digno

Neste Dia da Visibilidade Trans, a CTB reafirma que não há justiça social sem trabalho digno, com direitos e respeito à diversidade. Dar visibilidade à população trans é denunciar a exclusão, cobrar políticas públicas e fortalecer iniciativas que rompem com a lógica da discriminação.

A luta por igualdade no mercado de trabalho é parte indissociável da luta sindical e da defesa da democracia, dos direitos humanos e da dignidade de todas as pessoas que vivem do trabalho.

Com informações: brasil de fato. 

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