Manutenção da Selic em 15% sabota o desenvolvimento nacional, afirma CTB

Decisão do Banco Central, mantida pela quinta vez consecutiva, aprofunda a dependência do rentismo, restringe investimentos, freia a reindustrialização e penaliza trabalhadores e políticas sociais, denunciam centrais sindicais.

A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter a taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano, pela quinta vez consecutiva, escancara um problema estrutural da política macroeconômica brasileira. Com a maior taxa de juros real dos últimos 20 anos e a segunda maior do mundo, o país segue submetido a uma política monetária que atende à precificação do mercado financeiro e se opõe frontalmente ao desenvolvimento nacional.

No comunicado oficial, o Copom voltou a atribuir sua decisão às incertezas do cenário externo, especialmente à conjuntura econômica dos Estados Unidos, e à suposta necessidade de conter pressões inflacionárias. O Banco Central também mencionou a “moderação da atividade econômica” e a “resiliência do mercado de trabalho”, em referência à taxa de desemprego abaixo de 6% ao final de 2025 — patamar considerado “insustentável” pelo mercado financeiro.

Para a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), esse discurso repetitivo mascara o fracasso de uma política monetária que protege o rentismo, sufoca o crescimento econômico e penaliza a maioria da população.

“Aberta sabotagem ao crescimento do país”

O vice-presidente da CTB, Ubiraci Dantas, foi categórico ao criticar a decisão do Copom. Segundo ele, a manutenção da Selic em níveis tão elevados representa uma escolha política que transfere riqueza pública para o sistema financeiro, em detrimento da vida da população e do desenvolvimento nacional.

“A manutenção dos juros no patamar de 15% é nada mais nada menos do que uma aberta sabotagem ao crescimento econômico do país. Nos últimos 12 meses, a derrama dos nossos recursos para quem não produz nada, nenhum prego — ou seja, os banqueiros e agiotas — atingiu o patamar de R$ 1 trilhão.”

De acordo com Ubiraci, essa política impede o desenvolvimento econômico e aprofunda as desigualdades sociais.

“É a política de vale tudo para saciar o desejo dos banqueiros e agiotas de assaltar os cofres públicos em detrimento da vida da população e do desenvolvimento nacional. Vale tudo porque tira dos pobres para dar aos ricos.”

Ataque aos direitos sociais

O dirigente sindical alerta que, para sustentar esse modelo, o ajuste recai sempre sobre os trabalhadores e os mais pobres, por meio do arrocho das políticas sociais e da renda.

“Para ‘equilibrar as contas’, vale diminuir a recuperação do valor do salário mínimo, que já é um dos mais baixos da América Latina, reduzir o reajuste do BPC, do Bolsa Família, espremer ainda mais as aposentadorias e até querer desvincular o salário mínimo dos benefícios previdenciários.”

Enquanto isso, indicadores econômicos mostram desaceleração da inflação. Dados divulgados pela indústria apontam que o IPCA de 2025 fechou em 4,26%, abaixo do teto da meta. Ainda assim, o Banco Central insiste em manter a economia sob forte restrição monetária, ampliando custos, encarecendo o crédito e travando investimentos produtivos.

Juros altos, dívida pública e dependência

A política de juros elevados também tem impacto direto sobre a dívida pública. Segundo o Tesouro Nacional, a dívida cresceu 18% em 2025, o maior aumento em dez anos, superando R$ 8,6 trilhões — sendo cerca de metade desse montante atrelada à Selic. Na prática, isso significa mais recursos públicos destinados ao pagamento de juros, reforçando a lógica de dependência do rentismo financeiro, intensificada após a chamada “independência” do Banco Central.

Para a CTB, trata-se de uma política artificial de combate à inflação, que ignora fatores como a valorização do real frente ao dólar, a redução dos preços das commodities e o próprio histórico do regime de metas, que em 30 anos só atingiu o centro da meta em três ocasiões.

Necessidade de romper com o modelo neoliberal

Ubiraci Dantas defende uma mudança profunda na condução da política econômica, com o fim dos entraves que limitam o investimento público e o crescimento do país.

“O arcabouço fiscal aprovado pelo Congresso Nacional em 2023 é um limitador do investimento público. O tripé macroeconômico — meta de inflação, câmbio flutuante e superávit primário — é inibidor do crescimento econômico.”

Segundo ele, é necessário romper com esse modelo para superar a dependência e garantir soberania econômica.

“É preciso derrubar o arcabouço fiscal, o tripé macroeconômico e reduzir drasticamente as absurdas taxas de juros, para livrar o país dessa política neoliberal que só traz sofrimento, miséria, fome, desindustrialização, desemprego e arrocho salarial.”

O dirigente também critica a precarização do trabalho, frequentemente apresentada como geração de emprego.

“Montar numa bicicleta ou numa moto para entregar comida, sem poder comer, sem segurança e sem direitos, não é emprego. É escravidão.”

Por um projeto de desenvolvimento nacional

Para a CTB, a manutenção da Selic em 15% atenta contra os interesses nacionais e os direitos do povo trabalhador. A central defende a redução dos juros a patamares internacionais, o aumento dos investimentos públicos, a reindustrialização do país e a geração de empregos de qualidade.

O diagnóstico é claro: sem enfrentar o poder do sistema financeiro e sem recolocar o Banco Central a serviço do Estado e da sociedade, o Brasil seguirá condenado a um crescimento medíocre e à transferência contínua de riqueza pública para os rentistas.

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