Da defesa comercial ao projeto de nação: a lição chinesa para o Brasil

A terceira edição do curso anual de formação política e sindical da CTB, em fevereiro de 2026, trouxe em uma de suas aulas o tema “China: planificação, produtividade e soberania”, ministrado pelo professor Elias Jabbour. Na medida em que foi estimulado que os alunos redigissemum artigo de conclusão do curso, eu não poderia escolher outro tema. Minha escolha por este tema aprofunda asimpressões que colhi em uma visita multipartidária realizada ao país em 2017, onde presenciei a magnitude do planejamento estatal e a disciplina política que sustenta o desenvolvimento chinês.

A Câmara de Comércio Exterior do Brasil publicou no DOU a Resolução GECEX nº 854, de 12 de fevereiro de 2026, que aplica direitos antidumping definitivos às importações de laminados planos a frio da China, em uma investigação peticionada pela Usiminas, com apoio da ArcelorMittal e da CSN que, juntas, responderam por 100% da produção brasileira do produto similar em 2023. O documento aborda questões tão detalhadas sobre o funcionamento da economia chinesa que ficou irresistível fazer uma breve reflexão sobre o projeto de desenvolvimento do país à luz desta decisão do governo brasileiro, que traz relevantes aspectos de controle estatalda economia também relatados pelo professor Elias Jabbour durante sua aula.

Minha visita à China, em 2017, permitiu compreender que o sucesso chinês não é um acidente de mercado, mas fruto de um modelo que os próprios chineses definem como “socialismo com características chinesas”. O país se vê em uma “etapa primária do socialismo”, buscando desmistificar a ideia de uma transição para o capitalismo. O planejamento é ancorado na meta dos “dois centenários”, que constituem o “sonho chinês”: consolidar uma sociedade moderadamentepróspera até o centenário do PCCh em 2021 (alcançado)e transformar a China em um país socialista moderno, próspero, democrático e poderoso até o centenário da Revolução Chinesa, em 2049.

Na visita, observei laboratórios de inovação em Zhuhai, como a Zona de Livre Comércio da Ilha de Hengqin, onde o PIB aumentou 55 vezes em sete anos(2009-2016), seguindo a estratégia nacional definida pelo governo central. Na ocasião, estava sendo finalizada a construção da maior ponte do mundo, com 56 km de extensão, integrando Zhuhai, Hong Kong e Macau.

Um dos pilares do sucesso chinês e ponto central de contestação na Resolução GECEX é o domínio do Estado sobre o sistema financeiro. Na China, a concentração do crédito bancário não serve apenas ao lucro, mas é orientada para o Projeto Nacional definido nos Planos Quinquenais. A resolução relata que através dos “PolicyBanks” (como o Banco de Desenvolvimento da China) e dos grandes bancos comerciais estatais, o PCCh direciona crédito abundante a baixo custo para indústrias estratégicas.

Enquanto a China utiliza o capital para turbinar o crescimento industrial, o cenário no Brasil é diametralmente oposto. Em reunião do Copom em janeiro de 2026, o Banco Central brasileiro decidiu manter uma política de restrição monetária severa, com uma taxa Selic de 15% a.a, a segunda maior taxa de juros reais do mundo. Conforme traz a ata da reunião, o foco do Copom é quase exclusivamente o controle da inflação através do “arrefecimento da demanda agregada”, o que encarece o capital para o produtor nacional. Esta estratégia, ao ignorar o fomento industrial, traz prejuízos imensos para a produção brasileira, que precisa competir com empresas chinesas financiadas a custos mínimos.

A Resolução GECEX nº 854 detalha como a interferência estatal na China ultrapassa o controle acionário, penetrando na própria gestão das companhias, sejam elas estatais ou privadas. Segundo o texto, aConstituição do PCCh e a legislação chinesa obrigam a manutenção de comitês partidários dentro das empresas. Esses comitês têm o dever de “definir a direção certa” e garantir a implementação das políticas do Partido. Ainda segundo o texto da referida Resolução GECEX, o Partido possui um sistema centralizado de nomeação de administradores e, frequentemente, os principais executivos das siderúrgicas são membros do alto escalão do PCCh, garantindo que as decisões corporativas priorizem as metas de produção e emprego nacionais em detrimento da lógica de lucro puramente comercial. Nessa direção, o Estado controla os fatores de produção essenciais: a terra é de propriedade estatal ou coletiva e os preços da energia elétrica e outros insumos relevantes são fixados pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC) para manter a competitividade industrial.

A investigação da referida Resolução GECEX,revelou que o setor siderúrgico chinês também opera em condições de “não economia de mercado” segundo parâmetros da OMC. O Estado injetou montantes vultosos em suas plantas para cumprir o 14º Plano Quinquenal de Desenvolvimento Econômico e Social. Entre os exemplos, destacam-se: a empresa Baosteel reportou o recebimento de 654 milhões de renminbis (RMB) em subsídios apenas em 2021; a Angang Steel Company registrou 523 milhões de RMB destinados à pesquisa e à proteção ambiental em 2022; e a Shougang Group recebeu mais de 470 milhões de RMB em programas governamentais no mesmo período.

Essa injeção de capital gerou uma imensa sobrecapacidade produtiva (1,17 bilhão de toneladas em 2023). Quando a demanda interna chinesa não absorve o aço, o excedente é “desovado” no mercado global através de práticas de dumping, que é a venda ao mercado estrangeiro de produtos com preços inferiores de seu custo de produção. No Brasil, a Resolução GECEX apurou margens de dumping alarmantes: nas exportações da Ansteel Tiantie para o Brasil, o equivalente à margem relativa de dumping de até 141,6%, comprovando que os preços chineses não refletem custos reais de produção, mas sim distorções de preços internacionais em face de subsídios.

A conclusão da investigação brasileira reafirma que o antidumping é um instrumento legítimo de defesa comercial para preservar a indústria e o emprego nacional. A deterioração dos indicadores da Usiminas, CSN e ArcelorMittal, que viram sua produção cair 27,7% nos produtos siderúrgicos apurados, prova o dano material causado por essa concorrência. A imposição de direitos antidumping como proteção ao mercado nacional é correta e não pode ser comparada com o tarifaço e sanções aplicadas pelos EUA de Donald Trump em diversos paísesao redor do mundo.

Contudo, para o movimento sindical e para o debate sobre o desenvolvimento nacional, a China oferece uma lição extraordinária. O sucesso chinês prova que o desenvolvimento econômico é uma decisão política coordenada. Enquanto a China planeja a soberania para 2049 e direciona seu sistema financeiro para isso, o Brasil corre o risco de desindustrialização precoce ao manter uma política monetária que pune o produtor interno com juros de 15% a.a.

A reindustrialização do Brasil exige que superemos a subordinação do Estado aos interesses rentistas em favor de um projeto de longo prazo. Não basta combater a concorrência desleal externa, inclusive a chinesa; é necessário também questionar a lógica financeira interna que prioriza o rentismo em detrimento da produção. A experiência chinesa indica que, para um país se desenvolver, a economia deve servir, em última instância, aos objetivos permanentes da nação.

Ronaldo Leite é Secretário Geral da CTB e dirigente do SINTECT RJ

Referências bibliográficas

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Ata da 276ª reunião do Copom, 27-28 jan. 2026. 2026. Disponível em https://www.bcb.gov.br/content/copom/atascopom/Copom276-not20260128276.pdf. Acesso em 14/02/2026.

BRASIL. Resolução GECEX nº 854, de 12 fev. 2026.Diário Oficial da União, 13 fev. 2026. Disponível em: https://www.in.gov.br/web/dou/-/resolucao-gecex-n-854-de-12-de-fevereiro-de-2026-687392965. Acesso em 14/02/2026.

LEITE, Ronaldo. Relatório da visitação multipartidária à China (set. 2017). Documento não publicado. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1sV43OzEPwK-kaGXM4fsWejm09YZQM6Ie/view?usp=sharing. Acesso em 14/02/2026.

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