Por Welliton dos Reis Santos, secretário de Políticas Agrícola e Agrária da CTB
Desde o ano de 2022, quando inicia a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, já haviam estudos de que o conflito causaria impactos na agricultura familiar, que garante 41% da produção na Ucrânia, principalmente porque muitos países dependem da Ucrânia e da Rússia para obter trigo.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), milhões de famílias no país têm plantações, representando 38% das terras agrícolas, constatando, quando que quase um terço da população da Ucrânia, ou 4,6 milhões de famílias, vive em zonas rurais, afirmando que a agricultura familiar representa 90% das unidades agrícolas do país.
Assim, a agência da ONU adverte que o conflito terá um grande impacto para essas famílias, que contribuem com 41% da produção agrícola na Ucrânia. O total representa 38% de todas as terras agrícolas.
A FAO destaca que a agricultura familiar tem papel central para a segurança alimentar, tanto nas zonas rurais quanto urbanas. A atividade domina vários subsetores: 85% da produção de vegetais, 83% da produção de frutas e frutos vermelhos, 99% da produção de mel e 70% da produção de leite. O setor familiar responde ainda por quase um terço de toda a produção nacional de carne.
A preocupação imediata da agência da ONU é garantir que as famílias rurais consigam plantar sementes de batatas e vegetais desde já e até meados de maio, para que seja possível fazer as colheitas entre julho e setembro.
Preocupações brasileiras com a guerra do Oriente Médio
Por um lado, o Brasil fez um apelo à interrupção de ações militares ofensivas e instou todas as partes a respeitar o direito internacional. O país condena quaisquer medidas que violem a soberania de terceiros Estados ou que possam ampliar o conflito, tais como ações retaliatórias e ataques contra áreas civis. O governo se solidarizou com a Arábia Saudita, o Bahrein, o Catar, os Emirados Árabes Unidos, o Iraque, o Kuwait e a Jordânia, atacados pelo Irã em 28 de fevereiro. Ao lamentar a perda de vidas civis, o Brasil expressa ainda solidariedade às famílias das vítimas. Enfatiza, a propósito, a obrigação dos Estados de assegurar a proteção de civis, em conformidade com o direito internacional humanitário.
Por outro, os impactos causados pela guerra no oriente médio, onde vidas inocentes que estão sendo ceifadas por interesses outros, e famílias estão pagando um alto preço por algo que não cometeram, é motivo de preocupações. Além do que podemos ver, a imprensa mostrou um motivo real, que foi o ataque a uma escola de meninas iranianas, que causou a morte de 168 crianças.
Além disso, destacamos os impactos econômicos e sociais decorrentes da escalada da guerra envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã, no Oriente Médio e sua crescente ampliação para outros países da região. Somado ao bloqueio do Estreito de Ormuz, que é uma rota estratégica por onde transita parcela significativa do petróleo mundial e de insumos utilizados na produção agrícola, o agravamento das tensões geopolíticas amplia as incertezas nos mercados internacionais, pressiona os preços da energia, dos fertilizantes e de outros insumos essenciais à produção de alimentos, com repercussões diretas sobre as economias nacionais.
Aumento dos custos no campo
O aumento nos custos do campo é um dos impactos que já preocupam a agricultura familiar brasileira. Tendo a alta do petróleo, que gera combustíveis essenciais para as atividades agrícolas e para o transporte da produção, principalmente o óleo diesel, como um dos principais pontos de alerta. Brasil a fora, mesmo que injustificáveis e o com apelo do Governo Federal para a redução, os preços já registram aumento, o que agrava a situação dos agricultores familiares, que trabalham com margens de lucro cada vez mais apertadas.
Estes reflexos do conflito internacional sobre o campo, tende a pressionar ainda mais os custos de produção agrícola, pois, os combustíveis subiram, apertando ainda mais as margens de ganho da agricultura familiar e, além do mais, aumentam os custos para produzir e transportar alimentos.
Aliado a estes aumentos e por conta destes, a instabilidade no mercado internacional também pode provocar aumento no preço de insumos agrícolas, como fertilizantes potássicos, nitrogenados e fosfatados, ampliando os desafios enfrentados pelos agricultores familiares.
O aumento do custo de produção impacta diretamente a agricultura familiar — responsável por grande parte dos alimentos que chegam diariamente à mesa da população brasileira — e tende a pressionar os preços dos alimentos, contribuindo para aumentar a inflação, afetando tanto agricultores quanto consumidores, com reflexos negativos sobre a economia e sobre as contas públicas.
“Reconhecemos e valorizamos as iniciativas adotadas pelo governo brasileiro para reduzir o preço dos combustíveis em março de 2026, com foco especial no óleo diesel, como a criação de subsídios para produtores e importadores, visando conter a inflação e custos de frete, embora, tais medidas ainda são insuficientes para responder às necessidades da agricultura familiar”, destaca o Secretário Nacional de Políticas Agrícola da CTB, Welliton Santos.
Sem grande pesquisa, salientamos que cadeias produtivas estratégicas como o leite, o arroz, a cebola e o cacau já enfrentam dificuldades de comercialização, com preços de mercado que, em muitos casos, não cobrem os custos de produção, situação que tende a se agravar com a elevação dos insumos e da energia.
A guerra para as lavouras: como o conflito pode afetar produção de grãos
Mesmo que o conflito no Oriente Médio tenha horizonte incerto para acabar, o estopim já trouxe efeito para os preços dos principais adubos usados em lavouras no Brasil. Desde a eclosão do conflito gerado pelos Estados Unidos e Israel ao atacarem o Irã, a tonelada da ureia, um tipo de fertilizante nitrogenado muito usado em lavouras de milho, por exemplo, subiu cerca de 35%, para US$ 650.
Do Oriente Médio saem quase quatro milhões de toneladas ou 40% dos adubos nitrogenados que o mundo consome. Só o Irã responde por 10%. São dados da Associação Internacional de Fertilizantes (IFA, na sigla em inglês). A mesma Associação diz que se durar dois meses o impacto em preços será muito forte. Mas agora o mico está com os produtores norte-americanos, que neste momento do ano, estão às vésperas do plantio, quando não podem esperar para comprar adubo. A guerra, portanto, os afeta em cheio.
Já os brasileiros terão mais tempo. No Brasil, em época de colheita e comercialização, o plantio de maiores volumes de grãos volta a acontecer a partir de julho. Via de regra, nesta época do ano, os agricultores que produzem grãos começam a comprar os fertilizantes que vão ser usados mais adiante.
A agricultura familiar é um pilar estratégico da soberania e da segurança alimentar e nutricional do Brasil. Em um contexto de crescente instabilidade internacional, torna-se ainda mais urgente fortalecer as políticas públicas que asseguram condições de produção, preservação do meio ambiente e da biodiversidade, renda e permanência das famílias no campo.
Entre as alternativas que precisam ser consideradas, destacamos algumas principais:
- revisão das condições de renegociação das dívidas dos agricultores familiares;
- fortalecimento e ajustes nas políticas de preços mínimos;
- ampliação das políticas de compras institucionais no próximo Plano Safra da Agricultura Familiar;
- ampliação de linhas de crédito rural com juros subsidiados;
- aprovação de um projeto de lei para securitização das dívidas rurais, com a prorrogação de dívidas dos produtores e o avanço na discussão de soluções estruturais.
É nesse contexto que a CTB defende a abertura imediata de diálogo entre o governo federal e as organizações representativas da agricultura familiar para avaliar os impactos da crise internacional e construir medidas capazes de proteger a produção de alimentos no país.
Esperamos que o Estado brasileiro adote medidas firmes e tempestivas para proteger quem produz alimentos e garantir o abastecimento alimentar da sociedade.
Secretário de Políticas Agrícola e Agrária – CTB Nacional; Secretário Geral da FETAG-BA; Suplente da Diretoria da CONTAG; Secretário de Trabalhadores Assalariados Rurais do Polo Sindical da Bacia do Rio Grande; Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Barreiras.


