O fim da escala 6×1 e a redução da jornada sem redução de salários são uma prioridade da CTB e um objetivo central da Marcha da Classe Trabalhadora em Brasília
Por Adilson Araújo, presidente da CTB
Como era de se esperar, setores do empresariado organizaram um poderoso lobby contra o fim da desumana escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho sem redução de salários, ansiada por dezenas de milhões de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros e apoiada por mais de 70% do povo brasileiro.
Na medida em que avança no Congresso Nacional o debate e a tramitação de projetos que contemplam essa justa reivindicação da classe trabalhadora brasileira, a luta entre capital e trabalho se acirra.
O noticiário da grande mídia, na quinta-feira (9), concedeu um controvertido destaque a uma previsão alarmista da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre os impactos da redução da jornada na economia.
Alarme falso
Na opinião da confederação, que representa os donos do capital no setor, a redução da jornada (sem redução de salários) pode provocar queda no PIB, alta generalizada nos preços das mercadorias e desindustrialização. Embora apresentada como resultado de um levantamento digno de crédito, a previsão patronal não só carece de fundamento científico como também contraria a reunião previsão de muitos pesquisadores sérios e a experiência histórica. Ou seja, trata-se de um alarme falso.
A Islândia é um bom exemplo a esse respeito, mas não é o único. Os resultados objetivos da redução da jornada de trabalho para quatro dias naquele país (escala 4×3) confirmaram um aumento tanto na produtividade do trabalho quanto no bem-estar dos trabalhadores. Bem-estar social e produtividade do trabalho andam de mãos dadas e, juntos, promovem crescimento da economia.
Previsões alarmistas de empresários que apontavam para uma queda da produção não se confirmaram. Ocorreu o oposto.
Estudos publicados em outubro de 2024, após anos de testes (2015–2019) e ampla adoção (hoje cerca de 90% da classe trabalhadora islandesa trabalha apenas quatro dias por semana e goza de três dias de folga), revelaram que o PIB da Islândia cresceu acima da média europeia e da OCDE. Em 2023, a taxa de crescimento foi de 4,1%.
Bem-estar e produtividade do trabalhador
A redução das horas de trabalho não diminuiu a produção, ou seja, não provocou queda do PIB, muito menos da produtividade. Pelo contrário, em muitos setores a produtividade aumentou, pois os funcionários se tornaram mais focados e eficientes na produção, com menos estresse e mais tempo de descanso.
Os temores de que menos horas de trabalho prejudicariam a economia não estavam em sintonia com a realidade dos fatos. Por outro lado, os benefícios decorrentes da redução da jornada foram notórios: 90% dos trabalhadores relataram menos estresse, menos burnout e melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
A mudança resultou em semanas de trabalho de 35 a 36 horas (sem redução salarial). Com mais tempo livre, houve uma melhor divisão das tarefas domésticas, contribuindo para a igualdade de gênero.
Modelo
O sucesso islandês está servindo de modelo para experiências-piloto em outros países europeus e desafiando o pensamento tradicional, essencialmente reacionário, de que mais horas de trabalho equivalem a maior produção. O Brasil também deve observar com carinho e atenção este e outros exemplos históricos da relação entre redução da jornada e produtividade.

O terrorismo promovido pelos donos do capital, com base em fake news, não é novidade. Usaram argumentos e uma campanha sórdida semelhante, com a cumplicidade da mesma mídia burguesa, contra o 13º salário, o descanso semanal remunerado, férias e outros direitos conquistados com muita luta pela classe trabalhadora.
A manchete de “O Globo” (reproduzida acima) numa outra quinta-feira, do dia 26 de abril de 1962, reflete a hostilidade atávica da alta burguesia brasileira com as conquistas e os direitos trabalhistas. Não custa lembrar que o jornal, e o conjunto das Organizações Globo, é propriedade privada da bilionária família Marinho, dona de uma das maiores fortunas do país, que orienta de forma ditatorial a linha editorial de todos os veículos que compõem a rede.
As previsões da CNI são falsas e tendenciosas, mas ganharam destaque na grande mídia, que em geral reportou o “levantamento” da confederação patronal de modo parcial e tendecioso, desprezando o princípio básico do bom jornalismo de que é preciso ouvir e divulgar também o outro lado. Há inúmeros estudos (entre os quais o do IPEA e de uma ilustre pesquisadora da Unicamp, a economista Marilane Teixeira.
Do outro lado da arena desta batalha política e social, a classe trabalhadora e seus aliados não devem subestimar o poder do lobby acionado pelos donos do capital, que têm notória influência sobre os parlamentares em função da lógica de financiamento das campanhas e outros fatores.
Prioridade
O objetivo do patronato é evitar o debate e adiar (para depois congelar) a apreciação e votação do tema pelo Parlamento, enquanto o presidente Lula, a CTB e as centrais sindicais exigem que a questão seja definida no curso deste ano, antes das eleições e preferencialmente no primeiro semestre. Os empresários, representados por políticos do chamado Centrão e a extrema direita, temem a votação porque nenhum parlamentar quer se expor a votar contra proposta que conta com apoio tão amplo na sociedade e é um anseio urgente de milhões de eleitoras e eleitores.
Ao longo da história, conforme observou Karl Marx, a regulação e redução da jornada de trabalho ocorreram como resultado da luta multissecular entre capitalistas e trabalhadores pelo domínio e apropriação do tempo de trabalho, que afinal gera o valor econômico e consome parte considerável do tempo de vida de quem trabalha. Não devemos esperar que seja diferente desta vez, malgrado o formidável avanço das forças produtivas e da produtividade do trabalho.
Desmascarar o terrorismo patronal e mobilizar a classe trabalhadora para conquistar o fim da escala 6×1 e a redução da jornada sem redução de salários é uma prioridade da CTB e do movimento sindical brasileiro e um objetivo central da Marcha da Classe Trabalhadora em Brasília, convocada unitariamente pelas centrais para a próxima quarta-feira, 15 de abril.


