Há 100 anos o industrial estadunidense Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, acabou com a escala 6×1 e reduziu para 40 horas semanais a jornada de trabalho dos operários empregados em sua empresa. À época sua decisão suscitou muita polêmica e foi alvo de críticas ferozes de expressivos setores da alta burguesia. Os resultados objetivos da iniciativa desmentiram as previsões sombrias dos que foram contra a redução da jornada alardeando que ocorreria uma forte queda da produção, acompanhada por falências e demissões em massa. Pelo contrário, o que se viu foi o crescimento do emprego, do consumo e, por consequência, da produção de mercadorias para satisfazer a demanda elevada.
Pois no Brasil, hoje, um século depois da iniciativa tomada por Henry Ford (que logo se tornou padrão na economia), setores mais reacionários do patronato entoam o mesmo cantochão ultrapassado para sabotar o debate e impedir o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de trabalho para 40 horas, reivindicação que corresponde exatamente ao que o magnata da indústria automobilística introduziu com sucesso na montadora. Mas também por aqui experiências de empresários menos obtusos, abertos à experiência e sensíveis aos dramas dos assalariados, estão provando que os argumentos contra o fim da escala 6×1 carecem de fundamentos e que o tempo livre é um caminho para aumentar a produtividade do trabalho em nosso país. A reportagem das jornalistas Pâmela Celina e Amanda de Oliveira, do g1 AC e Rede Amazônica Acre — Rio Branco, reproduzida abaixo, é ilustrativa a este respeito.
Com o debate do fim da escala 6×1 ganhando força nacional e levantando discussões sobre qualidade de vida, produtividade e impactos da economia, empresas acreanas têm testado a proposta da escala 5×2 e relatam resultados positivos.
O plenário da Câmara dos Deputados aprovou nessa quarta-feira (27) uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas por semana em até 14 meses e permite o fim da escala 6×1. A proposta foi aprovada por 472 votos a 22 em primeiro turno e 461 a 19 votos no segundo turno.
Em uma rede de supermercados na capital acreana, duas unidades estão testando o formato com 85 funcionários. Segundo o gerente de Recursos Humanos Jônatã Zanconatto, os trabalhadores já apresentam uma qualidade de trabalho melhor, agora que conseguem ter dois dias de folga.
“Os funcionários estão ficando mais descansados. Obviamente, funcionário com desgaste mental, desgaste físico, não produz. Então, por isso, dou a importância de trabalhar essa qualidade de vida: mais tempo com a família, mais tempo em momentos de lazer e está tendo esse retorno do colaborador, mais descansado e mais produtivo”, explicou.
De acordo com Zanconatto, o diálogo com supervisores, nos horários considerados de pico dentro do supermercado, também mostra como está o retorno sobre a implementação da nova jornada.
“Os colaboradores estão conseguindo respeitar a segunda folga da semana, estão mais motivados, mais sorridentes, com um atendimento melhor. Eu vou ter resultados mais produtivos e alcançando sim, nessa fase experimental, todos os pontos que nós almejamos que sejam positivos”, disse.
Em outro supermercado, o teste da escala 5×2 já ocorre em quatro unidades com 200 colaboradores. Conforme o gerente de operações Rogério Marinho, a escolha foi fazer o teste na área dos caixas do supermercado, já que é o setor com a maior equipe e que atende diretamente o consumidor.
“Nós até então tivemos que fazer um estudo detalhado disso. Cada segmento tem uma realidade, entendemos que cada empresa tem uma estrutura, assim como cada operação tem os seus pontos de desafios. E o feedback que nós estamos tendo é positivo, porque ele [o funcionário] percebe que está tendo mais tempo com a família. E, inicialmente, está vindo com mais vigor desenvolver suas atividades”, detalhou.
Apoio do trabalhador
Milhões de brasileiros vivem na escala 6×1 e defendem mais tempo de descanso. Um deles é o técnico de gestão ambiental Jorge Araújo, que descreve como a rotina é cansativa.
“O cidadão começar de segunda até sábado, todo dia tem que levantar cedo, pegar a condução e trabalhar é cansativo. Você não vê a semana passar, não pode acompanhar a reunião do teu filho na escola, não pode ajudar ele na tarefa porque você não vai chegar em casa [cedo] e quando chega, mal dorme”, descreveu.
Para a auxiliar de Recursos Humanos Simone Souza, o fim da escala 6×1 será benéfico, principalmente para os trabalhadores passarem mais tempo com suas famílias.
“Eu acho justo porque as pessoas podem ficar mais com sua família em casa, cuidar da dos seus filhos e também cuidar da sua rotina do dia a dia. As pessoas têm mais tempo para aproveitar mais um pouco a sua família e também sair mais um pouco daquela rotina do trabalho”, defendeu.
Dados no Acre
No Acre, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) defende a importância do fim da escala 6×1 e prevê novos postos de trabalho. Segundo um levantamento feito pelo órgão, o estado teria 37.544 trabalhadores diretamente beneficiados com a mudança.
O número corresponde ao total de pessoas que atuam nesse modelo de jornada e que passariam a trabalhar em escala 5×2.
Ainda conforme os dados, o Acre possui, atualmente, 63.312 trabalhadores já inseridos na escala 5×2, o que equivale a 62,77% do total identificado, o que significa que 37,23% estão submetidos à escala com apenas um dia de descanso semanal.
“Os estudos do ministério demonstram que, assim como em 1988, que houve a diminuição de 48 horas para 44 horas e se gerou meio milhão de postos de trabalho, também há uma estimativa de que sejam gerados 500 mil novos empregos apenas com esse fim da escala 6×1”, afirmou o superintendente do Trabalho no Acre, Leonardo Lani.


