Ao longo de mais de três décadas, o 25J se firmou como data de memória, resistência e compromisso, nomeando uma desigualdade que os números confirmam ano após ano
Em 25 de julho de 1992, cerca de 300 mulheres de 32 países se reuniram em Santo Domingo, na República Dominicana, para o 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas. A grande mobilização foi um marco na luta contra o racismo, o sexismo e todas as formas de exploração em nosso continente.
Mais do que se limitar à denúncia pontual, o Encontro desenhou estratégias comuns e tomou a decisão de transformar uma história de exclusão em agenda permanente de luta. Dali nasceu uma rede de articulação que levou ao reconhecimento de 25 de julho como Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A data foi posteriormente referendada pela ONU (Organização das Nações Unidas).
Para o movimento sindical classista, este não é apenas um momento celebrativo. Ao longo de mais de três décadas, o 25J se firmou como uma data de memória, resistência e compromisso, nomeando uma desigualdade que os números confirmam ano após ano. É um chamado à ação.
As mulheres e o mundo do trabalho
Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), a taxa de participação feminina na força de trabalho na América Latina e no Caribe segue muito abaixo da masculina. As mulheres da região recebem, em média, 20% menos que os homens pelo mesmo trabalho.
A desigualdade não desaparece com mais estudo nem com mais experiência profissional. Mesmo quando acumulam qualificação equivalente à dos homens, as mulheres continuam encontrando mais desemprego, mais informalidade e salários menores. Para a OIT, essas disparidades são estruturais e se impõem como um dos principais obstáculos ao trabalho decente na região.
Quando o recorte de raça se soma ao de gênero, o quadro se agrava. De acordo com estudos da Cepal, as trabalhadoras afrodescendentes enfrentam maior informalidade, menor autonomia econômica e barreiras adicionais de acesso a cargos de direção. Ter mais escolaridade que seus pares não é garantia de melhores condições de trabalho.
O caso brasileiro
Nesse cenário, um movimento nos interessa diretamente. As mulheres correspondem a uma parcela da classe trabalhadora historicamente mais afastada da indústria. Nos últimos anos, porém, elas têm conquistado espaço crescente no setor metalúrgico. É um avanço construído por luta, não uma concessão.
O Brasil, maior economia industrial da América Latina, expressa de forma bastante nítida essa tendência regional, conforme descreve a economista Renata Miranda Filgueiras, técnica do Dieese. Dos 2,4 milhões de postos de trabalho metalúrgico no Brasil em 2024, quase 500 mil eram ocupados por mulheres. Ao longo de 14 anos (de 2010 a 2024), a participação feminina no ramo cresceu de 17,3% para 20,3%. É o melhor resultado da série histórica. Entre os trabalhadores negros, a participação média das mulheres é ainda maior: 37,7%.
Essa conquista convive com desigualdades que a simples presença numérica não resolve. As mulheres metalúrgicas ganham, em média, 19,2% menos que os metalúrgicos que cumprem a mesma jornada semanal. Já as trabalhadoras negras recebem, em média, 20,3% menos que os homens negros e 43,4% menos que os homens não negros.
O nosso desafio
Os números revelam duas verdades que caminham juntas. A primeira é que as mulheres conquistam, passo a passo, espaços antes inacessíveis na indústria – uma transformação gradual, mas consistente. A segunda é que o acesso ao emprego, por si só, não elimina as desigualdades históricas.
Nem mesmo a maior escolaridade elimina essas disparidades salariais – um contrassenso que expõe o quanto a hierarquização do trabalho por gênero e raça resiste mesmo diante do mérito e da qualificação. Ainda assim, cada vez mais, as mulheres no chão da fábrica impulsionam pautas de segurança, remuneração e jornada, turno após turno, convenção após convenção.
A União Internacional Sindical – Metal e Mineração (UIS MM) reafirma que a igualdade salarial, o combate ao assédio e a ampliação da presença de mulheres negras nas direções sindicais e nos postos-chave da indústria não são pautas paralelas à luta de classe. São a própria luta de classe, vivida por quem soma à exploração do trabalho o peso do racismo e do machismo.

O 4º Congresso da UIS MM, realizado em Buenos Aires em 2024, refletiu esse processo de transformação ao eleger, pela primeira vez, uma mulher para a Secretaria Geral. Recebi essa responsabilidade não como conquista individual – mas como expressão do protagonismo crescente das trabalhadoras em nosso movimento internacional. É preciso honrar a memória das companheiras que nos antecederam e pôr nossas reivindicações no centro da agenda sindical.
Nossa tarefa é fazer com que essa presença se traduza em mais direitos, mais organização e mais igualdade. A realidade exige políticas públicas, legislação protetiva e, sobretudo, organização sindical. A luta pelo fim de todas as formas de discriminação continua sendo parte inseparável da agenda do movimento dos trabalhadores.
Construir o futuro socialista
Neste 25 de Julho, enfatizamos que a força de trabalho que move o aço, os motores e as minas deste continente também é negra e feminina. Nenhuma entidade sindical da base da UIS MM pode se dizer à altura de sua missão se não denunciar os direitos negados às trabalhadoras e transformá-los em bandeiras efetivas de luta.
São essas companheiras que sustentam famílias, movimentam fábricas, operam máquinas e produzem riqueza. Defender seus direitos significa fortalecer toda a classe trabalhadora, ajudando a construir um futuro mais justo. Para nós, esse futuro tem nome: socialismo.
Enquanto houver discriminação salarial, racismo, violência e exclusão, nossa luta continuará. A emancipação da classe trabalhadora latino-americana será também obra das mulheres negras que hoje transformam as fábricas, os sindicatos e a própria história.


