Por Antônio Carlos Queiroz (ACQ)
Chega a ser divertido ouvir gente da classe média branca simpática ao Lula dissertar sobre os esforços que faz para convencer as empregadas domésticas (chamadas de “secretárias” ou “diaristas”) a votar no Companheiro. Como se… Como se o candidato da coligação Brasil Pronto pra Mais estivesse perigando justamente no segmento social das empregadas.
Para efeito da análise, assumo aqui que essas trabalhadoras vivem em domicílios de um a dois salários mínimos; e que a maior parte delas não passou do ensino médio incompleto, 62%, segundo o DIEESE
Lula não corre grande risco nesse segmento específico, como demonstra a 29ª rodada da pesquisa Quaest, divulgada hoje, 14 de agosto, com os recortes por segmentos sociais. No agregado, a disputa parece ter ficado mais apertada: no segundo turno, Lula tem 43% contra 40% de Flávio Bolsonaro, empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos. Nos segmentos sociais, não.
Entre os eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos, Lula bateria o Bolsonarinho com 58% contra 27%, a maior vantagem do petista em toda a tabela depois do Nordeste (61% a 26%), vantagem que cresceu desde a rodada anterior.
Entre as pessoas que têm apenas a instrução fundamental, o petista ganharia de Flávio Bolsonaro com 52% contra 31% dos votos, na hipótese de não liquidar o campeonato já no primeiro turno.
São as duas colunas em que se encaixa a categoria das empregadas domésticas: renda baixa e escolaridade baixa. Nas duas, a diferença passa de vinte pontos em favor de Lula.
Em contrapartida, Lula perderia de Bolsonaro de 47% a 36% entre os eleitores com ensino superior; de 45% a 38% entre os brancos; e de 48% a 34% entre os brasileiros cujas famílias ganham mais de cinco salários.
Na faixa dos brasileiros que se declaram pretos, Lula sairia vitorioso com 52% dos votos, contra 30% de Bolsonaro Júnior. Entre os pardos, ganharia de 44% a 37%.
Esses dados não foram levantados por nenhum pesquisador marxista especialista em luta de classes nem por sociólogos que verificam a realidade do racismo no País. Foram obtidos por um instituto que trabalha para a Rede Globo de Televisão, que pagou esta rodada da pesquisa, e que produz para a Genial Investimentos a mais longa série histórica de pesquisas presidenciais do País. Um agente pesado do sistema financeiro aliado à emissora líder de audiência, nenhum dos dois com fama de comunista.
A ideia de que as empregadas votariam preferencialmente em Bolsonaro provavelmente está vinculada à constatação, pela pesquisa Quaest, de que Lula tem menos apoio entre os evangélicos (28% a 53%), o inverso do que ocorre entre os católicos (50% a 36%). Sem maior ponderação, porém, essa pode ser uma ideia preconceituosa contra os evangélicos.
Por outro lado, um fato histórico resistente é a preferência política dos brancos ricos e escolarizados por candidatos conservadores de direita ou de extrema-direita, um fenômeno que, no Brasil, amarra a riqueza e o diploma no mesmo rumo. Nos Estados Unidos e na Europa, as duas variáveis se descolaram: a renda alta continua puxando para a direita, mas a escolaridade maior passou a trilhar caminho contrário. Em 2024, os brancos americanos com diploma universitário votaram majoritariamente em Kamala Harris, enquanto dois terços dos brancos sem diploma apoiaram o Trump. Na Europa, os partidos de extrema-direita têm maior apoio justamente nas faixas de menor escolaridade.

Em todo caso, diploma nunca serviu de garantia moral. O historiador alemão Michael Wildt estudou os perfis de 221 dirigentes do Escritório Central de Segurança do Reich (RSHA), órgão que reunia a Gestapo, a polícia criminal (Kripo) e o serviço de inteligência da SS, responsável pelas operações de segurança e extermínio do nazismo, e mostrou que a maioria tinha diploma universitário e boa parte tinha doutorado: não eram fracassados da periferia social, mas gente recrutada na elite burguesa do país.
Entre os comandantes dos Einsatzgruppen, os esquadrões móveis de extermínio, três dos quatro primeiros eram doutores; dos 17 chefes iniciais de subunidades, outros sete tinham doutorado. Alguns exemplos: Otto Ohlendorf, comandante do Einsatzgruppe D, formado em Economia e Direito, doutorou-se em jurisprudência em Pavia, na Itália; Otto Rasch, comandante do Einsatzgruppe C, tinha dois doutorados, um em Direito e outro em Economia Política, e por isso era chamado de “Dr. Dr. Rasch”; Franz Walter Stahlecker, comandante do Einsatzgruppe A, era doutor em Direito; e Franz Six, chefe do Vorkommando Moskau, doutorou-se em Heidelberg e chegou a ser professor catedrático em Berlim.
Não consta que empregadas domésticas tenham chegado à liderança das organizações do Terceiro Reich.
ACQ é jornalista e escritor


