Após as eleições, gestão estadual autorizou reajuste de 4,58% nas tarifas de pedágio e adiou a entrega de estações da Linha 6-Laranja. Para Rene Vicente, política de concessões prioriza os interesses das empresas e penaliza a população.
A população paulista começa a sentir no bolso os efeitos de mais uma decisão do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Dois dias após o segundo turno das eleições, a gestão estadual autorizou um reajuste de 4,58% nas tarifas de pedágio de rodovias paulistas. Ao mesmo tempo, duas estações da Linha 6-Laranja do metrô, que deveriam ter sido entregues em outubro, tiveram sua inauguração adiada para o fim de 2026, sem uma data definida.
As mudanças reforçam os questionamentos sobre as prioridades da administração estadual, que tem apostado na concessão de serviços públicos à iniciativa privada, enquanto motoristas enfrentam tarifas mais altas e passageiros continuam aguardando a conclusão de obras importantes para a mobilidade urbana.
O reajuste dos pedágios foi autorizado pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) em 27 de outubro, publicado no dia seguinte e entrou em vigor em 1º de novembro. O aumento atinge rodovias administradas pela concessionária Novo Litoral, incluindo trechos da Mogi-Bertioga, Mogi-Dutra, Rio-Santos e Padre Manoel da Nóbrega.
Na Mogi-Bertioga, por exemplo, a tarifa para automóveis passou de R$ 6,95 para R$ 7,27. Já na Rio-Santos, em Santos, subiu de R$ 5,80 para R$ 6,07.
Para o presidente da CTB-SP, Rene Vicente, as decisões do governo estadual revelam uma política que coloca os interesses das concessionárias acima das necessidades da população. “É preciso questionar quem realmente está ganhando com esse modelo de gestão. A população paga cada vez mais caro para utilizar as rodovias, enquanto os serviços públicos e a infraestrutura de transporte não avançam no ritmo prometido. O governo faz propaganda das concessões, mas quem sente o peso dessas decisões no orçamento é o povo trabalhador”, afirma Renê Vicente.
Pedágios adiados, mas concessionárias podem receber compensações
Outro ponto que merece atenção é o adiamento da implantação de 11 novos pontos de cobrança eletrônica da Rota Sorocabana, concessionária do grupo Motiva. A cobrança, inicialmente prevista para começar em 2026, foi transferida para 1º de janeiro de 2027.
Embora o governo tenha postergado a entrada em funcionamento dos pórticos, o contrato prevê a apuração de uma possível compensação financeira à concessionária pela receita que deixou de arrecadar no período.
Segundo as demonstrações financeiras da empresa, a diferença entre a arrecadação prevista e a efetivamente obtida deverá ser considerada no cálculo do reequilíbrio econômico-financeiro da concessão. O valor ainda não foi divulgado e dependerá da apuração do tráfego e das tarifas aplicáveis.
A recomposição poderá ocorrer por diferentes mecanismos previstos contratualmente, como pagamentos públicos, utilização de recursos da conta de ajuste da concessão ou alterações tarifárias. Isso significa que o adiamento da cobrança não elimina necessariamente os custos envolvidos para o poder público e para os usuários do sistema.
Linha 6-Laranja acumula atrasos e custos bilionários
Os problemas também atingem a expansão do metrô. Na Linha 6-Laranja, duas estações previstas para outubro, Brasilândia e Itaberaba-Hospital Vila Penteado, não foram entregues no prazo anunciado pelo governo estadual.
A Artesp informou que as obras estavam 96,3% e 87,7% concluídas, respectivamente, e transferiu a previsão de abertura para o fim de 2026, sem estabelecer uma data específica.
O atraso ocorre depois de a Artesp reconhecer, em dezembro de 2025, um desequilíbrio contratual de R$ 3,69 bilhões em favor da concessionária Linha Universidade. O valor, calculado a preços de março de 2025, considera riscos identificados durante as obras e a adoção de um cronograma acelerado. O reconhecimento não significou pagamento imediato, uma vez que a forma de recomposição ainda depende de aditivo contratual.
Em julho deste ano, o governo antecipou a inauguração de seis estações. Entretanto, o trecho aberto funciona em operação assistida, de segunda a sexta-feira, das 10h às 15h, sem cobrança de passagem.
Além da Linha 6-Laranja, a conclusão da passagem subterrânea entre as estações Paulista, da Linha 4-Amarela, e Consolação, da Linha 2-Verde, também foi adiada. A entrega, inicialmente prevista para outubro de 2026, passou para agosto de 2027.
Mobilidade e serviços públicos precisam estar a serviço da população
Para Rene Vicente, os atrasos e os custos envolvidos nas concessões precisam ser acompanhados de transparência e responsabilidade com os recursos públicos. “Não é aceitável que a população tenha de conviver com tarifas cada vez mais altas, atrasos nas obras e serviços que não correspondem às expectativas criadas pelo próprio governo. Transporte público é um direito, não pode ser tratado apenas como oportunidade de negócio. São os trabalhadores que dependem diariamente desses serviços e que acabam pagando a conta de uma política que privilegia os interesses privados”, destaca o presidente da CTB-SP.
O cenário reforça a necessidade de ampliar o debate sobre o modelo de desenvolvimento adotado em São Paulo. Mais do que anunciar investimentos e inaugurações, o governo estadual precisa garantir que as obras sejam concluídas, que os serviços funcionem adequadamente e que os custos não sejam transferidos indiscriminadamente à população.
Para a CTB-SP, a mobilidade urbana deve ser tratada como uma política pública essencial, com planejamento, transparência e compromisso com os interesses da maioria da população, especialmente da classe trabalhadora.


