Por Adilson Araújo, presidente da CTB
O resultado das urnas nas eleições de meio mandato nos Estados Unidos trouxe um sopro de esperança para os trabalhadores de todo o mundo. A tão propagada “onda conservadora” naufragou, convertendo-se em uma extraordinária surra política no Partido Republicano e em seu principal cacique, o bilionário de extrema direita Donald Trump. Ao perder para os democratas o controle estratégico das duas casas legislativas (Câmara dos Deputados e Senado), o governo da extrema direita vê seus poderes consideravelmente enfraquecidos, abrindo caminho, inclusive, para a possibilidade concreta de um futuro processo de impeachment.
Mais do que uma mudança nas cadeiras do Congresso, o recado das urnas americanas é um manifesto explícito da classe operária e do povo contra a asfixia social. O voto refletiu o profundo descontentamento popular com os resultados de uma política econômica irracional e excludente, com a disparada no custo de vida que corrói os salários e com a violência institucionalizada contra os imigrantes — que nas potências capitalistas constituem o setor mais explorado e vulnerável da classe trabalhadora.
Três fatores centrais explicam a derrocada e a crescente impopularidade do projeto imperialista de Donald Trump:
- Tarifaço. Prometido como a salvação da indústria nacional, resultou em inflação galopante, penalizando o bolso de quem vive do salário em vez de gerar a recuperação econômica prometida.
- A guerra imperialista. Trump foi eleito prometendo paz, mas traiu seus eleitores ao promover uma guerra injusta e injustificável contra o Irã, desviando recursos públicos da saúde, da educação e de investimentos sociais para alimentar a máquina de guerra.
- A barbárie contra imigrantes – A política migratória violenta, repressiva e profundamente injusta, que tentou transformar o trabalhador estrangeiro em bode expiatório dos problemas nacionais, despertou profunda indignação na sociedade, em especial sobre o eleitorado latino-americano.
O pronunciamento da classe trabalhadora e do povo estadunidense nas urnas deixa um diagnóstico cristalino: a extrema direita e o nacionalismo xenófobo não são alternativas para a crise estrutural que perturba o capitalismo, e muito menos para conter o declínio da liderança econômica dos EUA no cenário global. O diagnóstico dos bilionários estava errado. A crise não é provocada pela imigração, mas sim pelo parasitismo econômico expresso na colossal dívida externa e na especulação financeira, associado ao desenvolvimento desigual das nações e às contradições inerentes ao sistema capitalista.
O reflexo no Brasil e o mau presságio para os Bolsonaros
Essa derrota histórica da extrema direita reverbera diretamente nas lutas sociais de todo o mundo e, particularmente, da América Latina. É uma notícia alvissareira para os que lutam contra o imperialismo e pela soberania dos povos, fortalece a luta dos palestinos pela liberdade e a batalha histórica de Cuba contra o bloqueio criminoso imposto por Washington, exacerbado por Donald Trump.
O enfraquecimento do trumpismo certamente retira oxigênio político das forças reacionárias que atacam os direitos trabalhistas, a soberania nacional e a democracia em solo brasileiro.
Como assinalou a jornalista Bela Megale, citando fontes diplomáticas, a nova conjuntura internacional criada após as eleições nos EUA configura um “mau presságio para os Bolsonaros”. Isolados e com o guarda chuva do padrinho americano avariado, a extrema direita local perde sustentação. Sem o abrigo de Washington, restará aos defensores do retrocesso fazer planos para pedir “asilo” em outros cantos do mundo daqui a dois anos, caso a derrota definitiva do trumpismo se repita nas eleições presidenciais.
Para o movimento sindical, o momento é de avançar. A derrocada dos bilionários nos EUA prova que, quando a classe trabalhadora se une contra a inflação, a perda de direitos e o autoritarismo, a extrema direita recua. É hora de fortalecer as bases, organizar a luta e consolidar a virada de chave rumo a um futuro de soberania, democracia, direitos e dignidade para quem de fato produz a riqueza do mundo.


