Pronunciamento no Conselho Mundial da Paz

Estimados companheiros e companheiras do Conselho da Paz do Nepal
Estimados companheiros e companheiras do Secretariado do Conselho Mundial da Paz

Em primeiro lugar, gostaria de expressar em nome do Conselho Mundial da Paz os agradecimentos ao Conselho da Paz do Nepal por organizar em seu país a reunião do Secretariado do Conselho Mundial da Paz, em tão boas condições. Os nossos agradecimentos se estendem ao povo do Nepal, hospitaleiro e acolhedor, e às instituições democráticas de seu país. Congratulamo-nos com as vitórias do povo nepalês e desejamos êxitos na construção da República democrática e na caminhada para o desenvolvimento e o progresso social.

Esta reunião se realiza num quadro de agravamento dos problemas econômicos e sociais no mundo e num momento em que se prenunciam novos conflitos.

Apesar da profusão de notícias e análises sobre o mundo já estar vivendo a fase dita “pós-crise”, nas últimas semanas eclodiu o que se pode chamar o segundo ciclo da crise global, desta vez em países da União Europeia que chegaram a uma situação falimentar relativamente à dívida pública e ao déficit fiscal. As duas maiores economias da União Europeia sofreram acentuada recessão em 2009. A economia da França encolheu 2,2% e a da Alemanha 5%. O ônus de tal crise recai sobre os trabalhadores e as camadas mais pobres da população, que sofrem de maneira mais direta e dramática as conseqüências das medidas governamentais, entre elas a redução dos salários, o desemprego, a precarização dos serviços públicos, o corte dos direitos trabalhistas e previdenciários. Saudamos as lutas dos trabalhadores que se mobilizaram nos últimos dias em greves e manifestações. Os dramas sociais da crise e as lutas que provocam são efeitos inevitáveis das políticas aplicadas pelas mesmas forças imperialistas que investem grandes recursos na militarização do planeta. Recentemente, o governo dos Estados Unidos anunciou um gasto militar para o ano em curso da ordem de 708 bilhões de dólares, numa situação em que o país apresenta um déficit fiscal de 1 trilhão e 500 bilhões de dólares, equivalente a mais de 10 por cento do Produto Interno Bruto.

Companheiras e companheiros,

É neste ambiente que mais uma vez a humanidade ouve o rufar dos tambores de guerra. Numa reafirmação do seu propósito de manter o monopólio sobre as armas nucleares e dominar a região do Golfo Pérsico e do Oriente Médio, os Estados Unidos elevaram o tom das ameaças ao Irã e iniciaram uma escalada militarista na região que pode redundar em conseqüências funestas para a paz mundial e a segurança internacional. Ao tempo em que adotam novas e mais brutais sanções contra o país persa, empreendem intensa campanha diplomática e política para que a ONU ou países de per si façam o mesmo no plano bilateral. No aspecto militar, o governo de Barack Obama anunciou a instalação de um sistema anti-mísseis em quatro países do Golfo Pérsico e reforçou o chamado patrulhamento da costa iraniana por navios também habilitados a interceptar mísseis através de dispositivos militares de dissuassão e cerco. Não restam dúvidas de que tais ações constituem uma das mais brutais investidas de caráter político-militar nos últimos 12 meses. As promessas de paz e cooperação vão ficando para trás e cedendo lugar ao aspecto principal da política externa estadunidense: ameaças, intervencionismo e agressão.

Isto se expressa claramente no Afeganistão. Transformado pela atual Administração norte-americana no principal cenário da chamada “guerra ao terrorismo”, o país encontra-se sob a ocupação de cerca de 150 mil soldados dos exércitos dos Estados Unidos e da Otan. O aumento dos efetivos militares e das despesas com a guerra de ocupação atestam que são falsos os anúncios de que estaria em curso a preparação da retirada. Mancomunadas com um governo fantoche no cometimento de crimes de genocídio contra a população civil, as tropas invasoras defrontam-se com uma resistência nacional e popular cada vez mais intensa que lhes inflige pesadas baixas. Tanto no Afeganistão como no Iraque, que também permanece sob ocupação militar e onde se desenvolve ampla e encarniçada resistência, é mais atual do que nunca a exigência das suas populações, com o apoio dos partidários da paz em todo o mundo, de retirada imediata e completa de todas as tropas invasoras. As duas guerras iniciadas na era Bush e ainda em curso sob a nova Administração, transformaram-se num pesadelo estratégico dos Estados Unidos.

Recentemente, novo foco de conflitos voltou a eclodir na região denominada Chifre da África sob o pretexto de “luta contra terrorismo” e de “extirpar as células terroristas que se abrigam e atuam no Iêmen e a partir desse país se irradiam a outros países e regiões do mundo”, como apregoam os propagandistas do imperialismo. Em dezembro do ano passado os Estados Unidos realizaram bombardeios no Iêmen, provocando a morte de grande número de civis. Agora vêm à luz notícias de que o programa militar e de segurança do Pentágono para o Iêmen foi aumentado de 4,6 milhões de dólares para 67 milhões de dólares no ano passado. O Iêmen foi “elevado” à categoria de “prioridade”, segundo declarou o assistente do presidente Obama para a Segurança Nacional . Observa-se uma intensificação da atividade militar ao longo de mais de três mil quilômetros por todo o Oceano Indico. Em agosto do ano passado a Otan lançou sua segunda operação naval nas costas da Somália sob a denominação de “Escudo do Oceano”, com a participação de navios da Grã Bretanha, Grécia, Itália, Turquia e Estados Unidos. A operação prossegue, sem prazo para terminar.

O fato é que a região do Oceano Indico vem ocupando um crescente papel nas estratégias globais do imperialismo norte-americano. O Pentágono utiliza o estado de insegurança na região, muitas vezes provocado pelas próprias ações das potências imperialistas e de regimes títeres, como pretextopara policiar e intervir nas águas do Oceano Indico. . Com dificuldades para aplicar o plano estratégico do grande Oriente Médio, o imperialismo estadunidense volta-se também para a região do Oceano Indico, onde está decidido a alavancar o seu poderio naval.

As atenções do imperialismo norte-americano voltam-se também para o continente africano. Empobrecida pelo colonialismo, saqueada em seus recursos naturais, abandonada à própria sorte, a África possui, entretanto, imensas riquezas naturais, inclusive petróleo e minérios os mais diversos. Num intento que claramente visa a ocupar posições estratégicas e lançar-se num empreendimento neocolonialista, o imperialismo estadunidense decidiu criar o Africom, o Comando Africano. Trata-se de instalar na África unidades do exército dos Estados Unidos, altamente equipadas, permanentemente estacionadas no continente a fim de garantir, se necessário através da força, os interesses dos Estados Unidos na região. Uma vez mais, o objetivo proclamado é o “combate ao terrorismo”. Não passa, porém, de mais um conjunto de bases militares no exterior e de uma força de intervenção.

Companheiras e companheiros,

Há pouco mais de um mês a humanidade comoveu-se com a tragédia do povo haitiano, acometido por um terremoto de inauditas proporções que ceifou as vidas de mais de 200 mil pessoas e provocou enormes prejuízos materiais, dizimando praticamente a infra-estrutura já precária de um país empobrecido pelo colonialismo, pela dominação imperialista estadunidense e a pilhagem de elites domésticas ditatoriais e corruptas mancomunadas e submissas à potência do norte. Enquanto em vários países e no próprio Haiti estendiam-se as manifestações de solidariedade, em menos de 24 horas depois do sismo, militares dos Estados Unidos assumiam controle do aeroporto de Porto Príncipe. E para que? Para garantir a salvação e o repatriamento de cidadãos estadunidenses em serviço no país. Assim agiram os militares norte-americanos em detrimento da chegada da ajuda em comida e medicamentos provenientes de vários países. O fato gerou protestos das Nações Unidas, do Brasil e da França.

Em poucos dias desembarcaram no Haiti 12 mil soldados e anuncia-se que outros tantos ainda serão enviados. Para o Haiti estão sendo deslocados também porta-aviões nuclear, submarinos e outras embarcações de guerra.

Na verdade, o imperialismo norte-americano aproveitou-se da tragédia haitiana para fazer o que não pôde ser feito em 2004. Naquela ocasião, depois de ajudar a depor o presidente Bertrand Aristide e integrar uma força de ocupação em conjunto com a França, os Estados Unidos, empantanados que estavam na guerra ao Iraque, aceitaram a proposta das Nações Unidas de criar uma Missão sob o comando do Brasil e composta principalmente por países latino-americanos para pacificar o país, dilacerado por uma guerra civil, e estabilizá-lo através da cooperação econômica internacional.

Os Estados Unidos consideram o Mar do Caribe como “Mare Nostrum”, o primeiro perímetro fora de suas fronteiras. Na verdade, pretendem que o Mar do Caribe seja uma extensão do seu território, um mar que faça parte das suas próprias águas territoriais. Ao ocupar militarmente o Haiti usando pretextos humanitários, uma vez mais os Estados Unidos menosprezam o direito internacional e atropelam a ONU.

A ocupação militar do Haiti não pode ser vista fora do contexto da política intervencionista para a região da América Latina e Caribe, cuja prioridade é o cerco a Cuba e à Revolução Bolivariana Venezuelana. Nesse mesmo contexto se inscrevem a criação da Quarta Frota, das bases militares na Colômbia, o acordo militar com o Panamá e a existência de mais de uma dezena de outras bases militares em países caribenhos e latino-americanos .

A toda essa escalada militarista e preparativos para o desencadeamento de guerras de agressão contra os povos e nações soberanas, soma-se uma ofensiva conservadora dentro da própria sociedade norte-americana. Chama a atenção a virulência dos ataques à democracia, ao progresso social, aos direitos civis, à igualdade social, à soberania das nações e à paz mundial observada durante a realização do congresso dos ultraconservadores dos Estados Unidos na denominada Festa do Chá (Tea Party), feita sob a bandeira da “contra-revolução” americana, como proclamaram os principais oradores. Tal fato não deve ser observado dentro da lógica binária nem da polarização eleitoral entre democratas e republicanos, mas desperta a preocupação dos partidários da paz, pois neles estão incubados os germens do fascismo à moda americana.

Companheiras e companheiros,

Dentro de três meses, entre os dias 3 e 28 de maio, realizar-se-á em Nova Iorque, na sede das Nações Unidas, a 8ª Conferência para a Revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear, o TNP. Paralelamente, entre os dias 30 e 1º de maio, distintos movimentos organizam a Conferência “Desarmamento Agora”. Tendo como pilares a não proliferação, o desarmamento e o uso da energia nuclear para fins pacíficos, o TNP é na verdade um Tratado desigual, assimétrico, pois busca “congelar” a ordem internacional entre estados nuclearmente armados e estados não nucleares. Sua prioridade na não proliferação em detrimento do desarmamento consolida a existência de um seleto clube de potências nucleares. O CMP reafirma seu engajamento na luta pela eliminação das armas nucleares, a começar pelas grandes potências. O teor do Apelo de Estocolmo, lançado pelo CMP quando da sua fundação, permanece atual.

Companheiras e companheiros,

A ofensiva política do imperialismo e o desenvolvimento da tendência à militarização e a guerra atestam o grave momento que vive a humanidade, ameaçada em sua sobrevivência. São ameaças na vida cotidiana, relacionadas com políticas imperialistas que põem em perigo também a paz mundial, o equilíbrio ambiental, a segurança internacional, os direitos sociais, a democracia e a independência nacional.

O imperialismo norte-americano faz na atualidade um discurso hipócrita visando a confundir os povos e anestesiar as consciências, a fim de preservar intacto o seu sistema de dominação. Enquanto exibe uma fachada de democrata, multilateralista e cumpridor do direito internacional, pratica atos e protagoniza fatos que apontam no sentido contrário.

Os Estados Unidos fazem de tudo para semear a ilusão num “império benevolente”, uma potência imperial magnânima e democrática, construtiva, garantidora da estabilidade, da paz e da segurança de todos. Não uma potência dominante, mas uma fiadora do equilíbrio de poder, capaz de oferecer a segurança como um bem público a ser fruído por todos. Assim, embaralha as cartas, mistura as pedras do tabuleiro e faz com que se confundam agredidos e agressores, e apresenta sua política intervencionista como operações de salvação com conteúdo solidário e humanitário. Nada disso, porém, é novo na prática de política externa do Partido democrata. Com discurso multilateralista o ex-presidente Clinton seguiu a trilha do unilateralismo inaugurado pelo primeiro Bush no início da década de 90 do século passado. Elevou os gastos militares, expandiu a Otan, ignorou o Conselho de Segurança da ONU na operação “Desert Fox” em 1998 contra o Iraque e na guerra contra a ex-Iugoslávia em 1999.

Diante da falsidade do discurso do ocupante atual da Casa Branca e dos graves atentados à paz mundial, o CMP reafirma seu engajamento na luta pela paz e na solidariedade aos povos ameaçados e agredidos pelo imperialismo.

Os povos, apesar da cortina de fumaça cada vez mais densa, despertam e lutam. Do Oriente Médio à América Latina, da Europa, da África aos Estados Unidos, os povos estão em luta, o que consolida as nossas convicções de partidários da paz e lutadores por um mundo livre das guerras, e da opressão imperialista.

Muito obrigada!


Socorro Gomes é presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e também preside o Conselho Mundial da Paz (CMP)

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