A força e a sensibilidade da mulher marcaram o I Encontro das Trabalhadoras Metalúrgicas da Bahia, que aconteceu sábado (2), no Hotel Quinta Portuguesa, em Salvador. Cerca de 75 trabalhadoras de nove empresas como a Ford, Papaiz e Paranapanema participaram do evento, além de representantes das Metalúrgicas do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
“O evento teve um saldo positivo levando em consideração que muitas das trabalhadoras inscritas são mães, estão em serviço, e muitas vezes impedidas pelos próprios maridos de participar de um evento de caráter político”, avalia Jaíra Santiago, da Secretaria da Mulher da Federação dos Metalúrgicos da Bahia (FETIM-BA).
Durante a abertura do evento, Silvio Pinheiro, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Bahia, lembrou que quando ingressou na entidade só havia uma mulher diretora. Relembrou também um mito que existia dentro do próprio Sindicato, que dizia que em empresa que se tinha mulher, as lutas não avançavam. “O que faltava era discutir com a mulher o que elas queriam. Quando uma mulher passou a fazer parte da diretoria do Sindicato, essa realidade começou a mudar, porque começou a ter diálogo. Fortalecendo as mulheres nos locais de trabalho, fortalecemos os metalúrgicos”, afirma Pinheiro.
Rosa de Souza, da Secretaria da Mulher da CTB-BA (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), que participou da mesa de abertura, lembrou que era um desejo antigo das metalúrgicas e da própria CTB estadual a realização desse encontro. “A gente só ocupa os espaços evoluindo nossa consciência. Esse encontro apresenta essa oportunidade”. Também integraram a mesa Raimunda Leone, Secretária da Mulher da FITMetal, Andréia Diniz, do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim, e Everaldo, representando o Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari.
Três palestras foram ministradas no período vespertino. Uma sobre Assédio Moral, com André Luiz Souza Aguiar, doutorando em Ciências Sociais da UFBA, a segunda sobre o Perfil da Mulher Metalúrgica no Brasil, exposta por Ana Georgina, Supervisora Técnica do DIEESE, e a terceira sobre Violência Doméstica, com a Delegada e Diretora de Comunicação no Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado da Bahia, Janaína Dorea.
Os três debates foram muito enriquecedores para as metalúrgicas presentes que compartilharam as experiências vividas em chão de fábrica e nos lares. Os relatos emocionaram e serviram para exemplificar porque as mulheres precisam se organizar urgentemente no chão de fábrica e combater esses tipos de violência.
Durante sua fala, André destacou que as mulheres são as principais vítimas do assédio moral e sexual dentro das fábricas. E que a relação de poder perpetua essa prática que sempre existiu e que só nos últimos 10 anos começou a ser estudado. Ana Georgina destacou que as mulheres sofrem com a defasagem salarial e precarização do trabalho, mesmo tendo muito mais tempo de estudo que os homens. Janaina Dorea alertou para um dado estarrecedor. A cada 15 segundos uma mulher é violentada no Brasil. Ela explicou também a Lei Maria da Penha e seus benefícios.
Reivindicações para integrar a pauta da categoria
Ao final do evento foi retirada uma proposta de pauta para ser encaminhada para a direção dos oito sindicatos de base dos metalúrgicos na Bahia para ser integrada na pauta de reivindicação junto ao sindicato patronal.
Aprovada por unanimidade, a pauta inclui pontos como a erradicação do assédio moral; auxílio creche ou creche de qualidade dentro das unidades de trabalho; maior participação das mulheres nos sindicatos, além de fornecerem maiores condições para que as mulheres possam estar na executiva dos mesmos; ratificar as convenções 100, 111 e 158 da OIT; estabelecer um maior cuidado no momento da assinatura dos acordos de PLR (Participação nos Lucros e Resultados), levando em consideração que muitas vezes as metas estabelecidas só agravam os casos de assédio moral; organizar as mulheres no chão de fábrica, envolvendo-as nas atividades sindicais; fomentar a participação das mulheres na CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) e promover reuniões periódicas nos sindicatos para discutir com as trabalhadoras as problemáticas enfrentadas.


