Joílson Cardoso: “O desenvolvimento econômico e social chinês é fruto de muito planejamento”

Em entrevista ao “Portal PSB”, o secretário Nacional Sindical do Partido Socialista Brasileiro e diretor de Política Sindical e Relações Institucionais da CTB, Joilson Cardoso, esteve, juntamente com parlamentares e dirigentes do PSB, PT, PDT e PCdoB, na China, durante a segunda quinzena de julho a convite do Partido Comunista da China (PCCh).

Segundo o sindicalista o objetivo da visita foi estabelecer uma relação partidária e de governança entre o PCCh e os Partidos que compõem o núcleo de governo da presidenta Dilma Rousseff, além de ampliar os vínculos bilaterais entre as duas nações. “Muitas questões nos impactaram em relação ao Estado chinês. A principal delas foi o pungente desenvolvimento em infraestrutura. O crescimento econômico e social chinês é fruto de muito planejamento. Eles planejam a curto (5), médio (10) e longo prazo (20). Tudo naquele país é debatido e conceituado a partir da teoria e prática das realidades regionais”, afirmou.

Confira a íntegra da entrevista concedida à jornalista Priscila Rocha:

Portal PSB Nacional: Qual foi o principal motivo da visita à China?
Joílson Cardoso: O objetivo foi estabelecer uma relação partidária e de governança entre o Partido Comunista Chinês e os Partidos que compõem o núcleo de governo da presidenta Dilma Rousseff. Durante os 12 dias que passamos lá desenvolvemos uma pauta trabalhada e construída pelo Partido Comunista Chinês. Cumprimos uma agenda extensa, tanto no campo das relações com membros do governo da China, como na relação com membros do PCCh, que comemora 90 anos.

Como é a economia chinesa e em que aspecto ela se diferencia do Brasil?
Joilson: Muitas questões nos impactaram em relação ao Estado chinês. A principal delas foi o pungente desenvolvimento em infraestrutura. De acordo com membros da escola de administração da China e teóricos, todo o crescimento econômico e social chinês é fruto de muito planejamento. Eles planejam a curto (5), médio (10) e longo prazo (20). Tudo naquele país é debatido e conceituado a partir da teoria e prática, levando-se em conta as realidades regionais e culturais. A China é um país com enormes disparidades e realidades diferenciadas. 60% da população vive no campo e 40% nas cidades. No momento eles estudam as diferenças existentes entre os que vivem no campo, considerados mais pobres e a classe empresarial que hoje está concentrada nos grandes centros. Esse planejamento visa equilibrar os altos e baixos entre os que moram no campo e a cidade. Para se ter uma ideia eles pretendem retirar do campo, em cinco anos, 30 milhões de habitantes e transferi-los para as novas cidades que estão sendo construídas com o objetivo de melhorar a produção de alimentos, a partir do implemento de novas tecnologias, ao mesmo tempo em que promovem boas condições de vida para os produtores. Aqui no Brasil tivemos um êxodo rural que retirou 80% de pessoas do campo para as cidades. O problema é que isso não foi planejado. Atualmente temos 80% da população na área urbana, grande parte na periferia e favela com baixa qualidade de vida, e apenas 20% no campo. O grande diferencial dos chineses é que estão construindo cidades com infraestrutura para depois remover as pessoas. A consequência disso é que essas famílias, daqui há um tempo, estarão em locais planejados, com seus filhos nas escolas, estudando e se formando para implementar novas tecnologias na produção. Isso é um planejamento social. Eles conceituam a economia como socialista de mercado e não capitalista. Lá, o estado possui o controle total sobre o lucro das empresas e distribuição. Apesar das empresas públicas terem competição entre si, o acúmulo do lucro é mensurado e controlado pelo estado. Portanto, a questão da economia, segundo eles, está ligada ao desenvolvimento humano do povo e ao Estado chinês.

Qual a principal fonte de renda do chinês?
Joílson: A grande potência do país é a industrialização e o investimento em infraestrutura. Isso gera emprego. Na China, não se vê desemprego nas cidades e campos. Todos produzem. Existe um estado de seguridade nacional. Lá tem pobreza, mas não miséria, porque a renda do país é distribuída. No Brasil a renda per capita é de 10 mil dólares. Lá o PIB per capita por habitante é de 4 mil dólares, menos da metade de um brasileiro, mas esse montante é distribuído de forma mais equânime entre a população. Ou seja, a concentração de renda não está retida nas mãos de poucos. Para os chineses a economia só se sustentará como a segunda maior do mundo, se desenvolverem e redistribuírem ao mesmo tempo. É algo imprescindível para manter a nação chinesa integrada.

Quanto à saúde e educação?
Joílson: Existe um investimento grande para a erradicação do analfabetismo e o desenvolvimento, principalmente, da população jovem e a garantia à formação profissional. A saúde é subsidiada – paga por um plano que chamam de seguro saúde -, e universalizada, ou seja, não existe público e privado. Quando um chinês utiliza um sistema de saúde paga parte desses serviços, o que deixa o estado chinês muito atrás do nosso modelo SUS.

Como a China está organizada politicamente?
Joílson: A China é um país que convive com a existência de 55 etnias com representação política econômica e social, além de serem respeitadas nas suas particularidades. Por exemplo, a etnia hegemônica da China deve ter 90% do poder econômico e político. Para eles existem regras como a concepção de filhos. Já, para as demais 54 etnias, tal regra não existe. Ou seja, podem ter quantos filhos quiserem, são inclusive incentivados pelo estado para que mantenham as etnias existentes, tanto economicamente, como socialmente e culturalmente.

A questão da organização política é uma experiência que nós temos muito a aprender. Se pudéssemos desenvolver no Brasil seria ótimo. Ela se dá sob a liderança do Partido Comunista Chinês. O PCCh tem a maior parte do poder e convive com mais oito siglas, pequenas e minoritárias. Entretanto, a organização partidária é que promove todo um processo organizativo que resulta no pleno exercício do poder. Um dos pontos fundamentais do Partido Comunista é a escola de formação de quadros, que tive a oportunidade de debater com vários formuladores da política de formação, inclusive foi realizada uma audiência especificamente sobre esse ponto. Existe uma escola de formação de quadros para qualificar o dirigente que exercerá o poder em todas as esferas do partido e estado. Isso é fundamental. É importante existir, dentro do partido, escola, institutos onde os militantes possam estudar, serem preparados tecnicamente e ideologicamente dentro dos conceitos do programa Partidário. A Fundação João Mangabeira (FJM) do PSB faz um esforço nesse sentido, com os cursos de formação política e de gestão de políticas públicas em todo o País. Inclusive, já está em andamento uma parceria entre a Fundação João Mangabeira (FJM) e a China.

E os movimentos sindicais?
Joílson: Eles possuem uma central sindical com grande participação dos trabalhadores, 180 milhões de filiados. Na China, a jornada de trabalho é de 40 horas semanais. É o que estamos lutando para implementar em nosso país.

Que medidas de sucesso chinês o Brasil pode implementar?
Joílson: Primeiro é ter um projeto nacional. Os chineses dão muito valor a essa questão. Por décadas o país foi atacado e quase foi dissolvido como nação. Sofreu invasões e controles de países chamados imperialistas – Japão e Inglaterra. Mas apesar de ter muitas dificuldades, sempre possuíram um projeto de nação. Isso foi o diferencial. Hoje o país está em pleno crescimento econômico e social. O Brasil precisa se debruçar na construção de uma proposta nacional que coloque no centro os interesses do povo brasileiro e não de grupos separados.

E o PSB?
Joílson: Temos em nosso partido um grande esforço e experiência de planejamento governamental. Pernambuco é exemplo de governança, superação de necessidades efetivas do povo, mas, infelizmente, nem todos os estados são administrados dessa maneira. Minha opinião, é que os partidos precisam investir numa escola de formação de quadros para que vereadores, prefeitos, secretários, ministros saibam solucionar os grandes problemas brasileiros. Devemos valorizar os núcleos de base, proporcionar formação política à militância orgânica do partido, pois são eles os responsáveis pelo crescimento e sustentação de uma sigla.

Como é tratada a questão do desemprego na China?
Joílson: Na China existe um estado de bem-estar social e todos trabalham. Não há desemprego. Todos produzem. Eles investem muito em educação, formação técnica e cientifica da juventude. Observei que em Beijin, Changai e outras cidades há uma preocupação com desenvolvimento e sustentabilidade.

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