Castro Alves, o cantor dos escravos

Hoje, o país comemora o Dia Nacional da Poesia, data escolhida em homenagem a Castro Alves, um dos maiores poetas brasileiros. Ainda jovem abraçou a causa da abolição da escravatura, o que lhe rendeu o título de “cantor dos escravos”, pelo seu entusiasmo diante das grandes causas da liberdade e da justiça – a Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel da imprensa, e acima de tudo isso a luta contra a escravidão.

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu na fazenda Cabaceiras, próxima à vila de Curralinho, hoje cidade de Castro Alves, no Estado da Bahia. Era filho do médico Antônio José Alves e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando ele tinha apenas 12 anos. Por volta de 1853, mudou-se com a família para Salvador e lá estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro Barão de Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa. Ainda adolescente, já demonstrava vocação para a poesia.

Aos dezesseis anos foi para o Recife e começou os preparatórios para se habilitar à matrícula na Academia de Direito. Mas achando a cidade insípida, dedicou-se á boêmia e aos amores. O resultado dessa vadiagem foi a reprovação no exame de geometria. Em 1864, porém, conseguiu matricular-se no Curso Jurídico. Participou ativamente da vida estudantil e literária, sendo notado como poeta e orador, o que mais tarde ira torná-lo um dos arautos do movimento abolicionista e da causa republicana.

Em 1862 escreveu o poema “A Destruição de Jerusalém”, em 1863 “Pesadelo”, “Meu Segredo” (já inspirado pela atriz Eugênia Câmara), “Cansaço”, “Noite de Amor”, “A Canção do Africano” e outros. Em 1864, o poema “Mocidade e Morte” demonstra a maturidade do poeta.

Em 1867, quase na metade do curso de direito, Castro Alves, apaixonado pela atriz portuguesa Eugênia Câmara (dez anos mais velha do que ele), parte com ela para uma temporada na Bahia, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Na Bahia, ela representa um drama em prosa escrito por ele: “O Gonzaga ou a Revolução de Minas”. Na passagem pelo Rio, Castro Alves conheceu Machado de Assis, que o introduziu nos meios literários.

Em São Paulo, cursou o terceiro ano da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, mas nas férias do fim de 1868, feriu-se no pé direito com um tiro acidental de espingarda, por ocasião de uma caçada.

Disso resultou longa enfermidade, várias intervenções cirúrgicas e finalmente a amputação do pé. Antes de regressar à sua terra natal, publicou, em 1870, o livro “Espumas Flutuantes”. Foi vitimado pela tuberculose um ano mais tarde.
Veja abaixo o poema “O navio negreiro”.

O NAVIO NEGREIRO

Tragédia no Mar

 

1ª 

 

’Stamos em pleno mar… Doudo no espaço

Brinca o luar — doirada borboleta —

E as vagas após ele correm… cansam

Como turba de infantes inquieta!

 

’Stamos em pleno mar…Do firmamento

Os astros saltam como espumas de ouro…

O mar em troca acende as ardentias

— Constelações do líquido tesouro…

 

’Stamos em pleno mar… Dois infinitos

Ali se estreitam num abraço insano

Azuis, dourados, plácidos, sublimes…

Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?…

 

’Stamos em pleno mar…abrindo as velas

Ao quente arfar das virações marinhas,

Veleiro brigue corre à flor dos mares

Como roçam na vaga as andorinhas…

 

Donde vem?… Onde vai?… Das naus errantes

Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?

Neste Saara os córceis o pó levantam

Galopam, voam, mas não deixam traço

 

Bem feliz quem ali pode nest’ hora

Sentir deste painel a majestade!…

Embaixo — o mar… em cima — o firmamento…

E no mar e no céu — a imensidade!

 

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!

Que música suave ao longe soa!

Meus Deus! como é sublime um canto ardente

Pelas vagas sem fim boiando à toa!

 

Homens do mar! Ó rudes marinheiros

Tostados pelo sol dos quatro mundos!

Crianças que a procela acalentara

No berço destes pélagos profundos!

 

Esperai! Esperai! deixai que eu beba

Esta selvagem, livre poesia…

Orquestra — é o mar que ruge pela proa,

E o vento que nas cordas assobia…

 

Porque foges assim, barco ligeiro?

Porque foges do pávido poeta?

Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira

Que semelha no mar — doudo cometa!

 

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,

Tu, que dormes das nuvens entre as gazas,

Sacode as penas, Leviatã do espaço!

Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas…

 

 

Que importa do nauta o berço,

Donde é filho, qual seu lar?…

Ama a cadência do verso

Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! Que a noite é divina!

Resvala o brigue à bolina

Como um golfinho veloz.

Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena

Às vagas que deixa após.

 

Do Espanhol as cantilenas

Requebradas de languor,

Lembram as moças morenas,

As andaluzas em flor.

Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente

— Terra de amor e traição —

Ou do golfo no regaço

Relembra os versos do Tasso

Junto às lavas do vulcão!

 

O Inglês — marinheiro frio,

Que ao nascer no mar se achou —

(porque a Inglaterra é um navio

que Deus na Mancha ancorou)

Rijo entoa pátrias glórias,

Lembrando orgulhoso histórias

De Nelson e de Aboukir.

O Francês — predestinado —

Canta os louros do passado

E os loureiros do porvir…

 

Os marinheiros Helenos,

Que a vaga iônia criou,

Belos piratas morenos

Do mar que Ulisses cortou,

Homens que fídias talhara,

Vão cantando em noite clara

Versos que Homero gemeu…

…Nautas de todas as plagas…!

Vós sabeis achar nas vagas

As melodias do céu….

 

 

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!

Desce mais, ainda mais…. não pode o olhar humano

Como o teu mergulhar no brigue voador

Mas que vejo eu ali… que quadro de armarguras!

Que cena funeral cantar!… Que tétricas figuras!…

Que cena infame e vil!… meu Deus! Que horror!

 

 

Era um sonho dantesco… O tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho,

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros… estalar de açoite…

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar…

 

Negras mulheres , suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas, espantadas

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs.

 

E ri-se a orquestra, irônica, estridente…

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais…

Se o velho arqueja… se no chão resvala,

Ouvem-se gritos… o chicote estala.

E voam mais e mais…

 

Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

 

Um de raiva delira, outro enlouquece…

Outro, que de martírios embrutece,

Cantando, geme e ri

 

No entanto o capitão manda a manobra

E após, fitando o céu que se desdobra

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

“ Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!…”

 

E ri-se a orquestra irônica, estridente…

E da roda fantástica a serpente

Faz doudas espirais!

Qual num sonho dantesco as sombras voam…

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!…

 

 

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura… se é verdade

Tanto horror perante os céus…

Ó mar! porque não apagas

Co’a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?…

Astros! noite! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!…

 

Quem são estes desgraçados

Que não encontram em vós,

Mais que o rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são?… Se a estrela se cala,

Se a vaga à pressa resvala

Como um cúmplice fugaz,

Perante a noite confusa…

Dize-o tu, severa musa,

Musa libérrima, audaz!

 

São os filhos do deserto

Onde a terra esposa a luz.

Onde voa em campo aberto

A tribo dos homens nus…

São os guerreiros ousados,

Que com os tigres mosqueados

Combatem na solidão…

Homens simples, fortes, bravos…

Hoje míseros escravos,

Sem ar, sem luz, sem razão…

 

São mulheres desgraçadas

Como Agar o foi também

Que sedentas, alquebradas

De longe… bem longe vêm…

Trazendo com tíbios passos,

Filhos e algemas nos braços,

N’ alma – lágrimas e fel.

Como Agar sofrendo tanto

Que nem o leite do pranto

Têm que dar para Ismael…

 

Lá nas areias infindas,

Das palmeiras no país,

Nasceram — crianças lindas,

Viveram — moças gentis…

Passa um dia a caravana,

Quando a virgem na cabana

Cisma da noite nos véus…

 

… Adeus! ó choça do monte!…

… Adeus! palmeiras da fonte!…

… Adeus! amores… adeus!…

 

Depois o areal extenso…

Depois, o oceano de pó…

Depois no horizonte imenso

Desertos… desertos só…

 

E a fome, o cansaço, a sede

Ai! quanto infeliz que cede,

E cai p’ra não mais s’erguer!…

Vaga um lugar na cadeia,

Mas o chacal sobre a areia

Acha um corpo que roer.

 

Ontem a Serra Leoa,

A guerra, a caça ao leão,

O sono dormido à toa

Sob as tendas d’amplidão…

 

Hoje… o porão negro, fundo,

Infecto, apertado, imundo,

Tendo a peste por jaguar…

E o sono sempre cortado

Pelo arranco de um finado,

E o baque de um corpo ao mar…

 

Ontem plena liberdade,

A vontade por poder…

Hoje… Cum’lo de maldade,

Nem são livres p’ra… morrer…

Prende-os a mesma corrente

— Férrea, lúgubre serpente —

Nas roscas da escravidão.

E assim roubados à morte,

Dança a lúgubre coorte

Ao som do açoite… Irrisão!…

 

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se eu deliro… ou se é verdade

Tanto horror perante os céus…

Ó mar, porque não apagas

Co’a esponja de tuas vagas

Do teu manto este borrão?…

Astros! noite! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!…

 

 

Existe um povo que a bandeira empresta

P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!…

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?!…

Silêncio!… Musa! chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto…

 

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do Sol encerra,

E as promessas divinas da esperança…

Tu, que da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança,

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!…

 

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu na vaga,

Como um íris no pélago profundo!…

… Mas é infâmia demais… Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo…

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 

S. Paulo, 18 de Abril de 1868.

 


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.