O seminário “A valorização do trabalho na nova política industrial brasileira”, ocorrido no auditório do centro administrativo da Prefeitura de Betim, no último dia 20, com apoio do Sindicato dos Metalúrgicos e Região, reforçou o coro de trabalhadores e empresários a favor de medidas mais ousadas por parte do governo federal para impedir que o processo de desindustrialização cause ainda mais estragos na indústria brasileira.
Além de representantes dos trabalhadores e empresários, o evento, realizado pela Federação Interestadual dos Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil (FIT Metal) e também com apoio da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) – entidade à qual o Sindicado é filiado – registrou a presença de sindicalistas, entidades populares e do movimento social organizado.
Durante o seminário, os participantes debateram a necessidade de uma mudança mais profunda na política macroeconômica do país, sobretudo via redução das altas taxas de juros e controle da política cambial, uma vez que, com a valorização do real, a produção nacional acaba enfraquecida pela falta de competitividade em relação aos produtos vindos do exterior, que chegam com preços mais baixos ao Brasil.
Visão dos trabalhadores
Na abertura do seminário, Nivaldo Santana, vice-presidente da CTB Nacional, traçou um painel sobre a conjuntura nacional e internacional, com destaque para a crise econômica de 2008.
Segundo ressaltou o sindicalista, tal crise foi, na verdade, um desdobramento de um colapso financeiro internacional precipitado pela falência do tradicional banco de investimento americano Lehman Brothers, que, com um efeito dominó, trouxe reflexos, principalmente com o crescimento do desemprego nos EUA e muitos países da Europa, como Portugal, Alemanha, Grécia, França, Itália, e também ao Japão.
“Mas esta crise que o mundo vive pode, na verdade, se transformar em grande oportunidade para o Brasil, já que temos nossa indústria, que é muito forte, como carro-chefe da economia”, destacou.
Mais valorização do trabalho
Por isso, segundo Santana, é que, para proteger a indústria nacional, seria necessária uma postura de mais ousadia do governo Dilma Rousseff em relação à política macroeconômica. “Os juros altos dificultam o crescimento do país”, sintetizou, acrescentando que um dos grandes “adversários” a ser enfrentado nesta direção é o setor financeiro, que tem “lucros abusivos e que vive da especulação financeira”.
O vice-presidente da CTB reforçou, durante sua palestra, os princípios da central, que defende um projeto nacional de desenvolvimento para o país, com base numa indústria forte, avançada do ponto de vista tecnológico e, sobretudo, com valorização do trabalho, “salários e empregos de qualidade”.
A mesma linha de raciocínio apresentou o presidente da CTB Minas Gerais, Gilson Reis, que falou sobre a história e o desenvolvimento da indústria no país, chamando atenção para a necessidade do Brasil ter uma indústria com tecnologia de ponta – moderna e avançada, uma educação que seja tratada como prioridade e não como mercadoria, e que o governo observe com mais cuidado a questão social, sobretudo do trabalho. “Esta é uma questão que deve ser tratada do ponto de vista de um projeto nacional de desenvolvimento, com uma participação efetiva dos trabalhadores na renda nacional e com empregos decentes”, afirmou.
Já em sua palestra, o presidente da FIT Metal, Marcelino da Rocha, chamou a atenção para o fato de o país ter uma indústria forte que seja capaz de valorizar a mão-de-obra brasileira.
Críticas contra rotatividade de mão de obra
“A história tem nos mostrado que nenhum país do mundo se desenvolveu com uma indústria fraca”, afirmou, ao defender medidas, por parte do governo federal, para proteger a indústria brasileira contra a avalanche de produtos importados.
O presidente da FIT Metal também cobrou uma política mais ampla de qualificação profissional e de proteção aos empregos, após fazer criticar à grande rotatividade da mão-de-obra no mercado.
“Atualmente, o tempo médio de um trabalho dentro de uma empresa não passa de quatro anos”, ilustrou, ao citar dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Para Marcelino, os trabalhadores precisam ter “vez e voz” neste debate sobre a desindustrialização. “Por isso, defendemos uma postura de maior respeito das empresas em relação aos trabalhadores dentro das fábricas, já que falta mais democracia nas relações de trabalho”, completou.
Empresários cobram melhores condições para competir
No seminário, o setor industrial esteve representado por Adauto Duarte, relações trabalhistas da Fiat Automóveis, que falou em nome do setor automotivo local, e Guilherme Leão, da Gerência de Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).
Em sua intervenção, Adauto Duarte, observou que, apesar do forte crescimento da demanda interna do país, o que tem se refletido principalmente nos indicadors do comércio varejista, na massa salarial e na facilidade do crédito, a produção industrial tem apresentado fraco desempenho.
Apesar disso, Duarte ratificou os investimentos de R$ 7 bilhões que a Fiat Automóveis fará em novos produtos, tecnologia mais avançada e aumento de sua capacidade produtiva nos próximos anos.
Já Leão ressaltou que o Brasil e, particularmente, Minas Gerais, estão perdendo competitividade em relação aos demais países do mundo na exportação de bens da indústria da transformação (que transforma matéria-prima no produto final).
Amos os palestrantes do setor industrial argumentaram que, caso entraves como as altas taxas de juros e do câmbio, a carga tributária e as questões de logística e infraestrutura do país não forem resolvidos, o processo de desindustrialização tende a se agravar.
Betim em alerta contra desindustrialização
O seminário também contou com a presença de um representante do governo municipal, o secretário de Desenvolvimento Econômico, Cleanto Pedrosa, que apresentou números contundentes acerca da participação da indústria na receita do município.
Conforme os dados, 80% da receita de Betim é oriunda das riquezas produzidas pela indústria, daí a grande concentração da população economicamente ativa do município neste setor.
Pedrosa ressaltou que um dos grandes desafios do município é o da empregabilidade, o que deve ser feito através da capacitação da mão-de-obra, a ampliação das escolas profissionalizantes e universidades e investimento em incubadoras tecnológicas.
O representante da prefeitura de Betim disse, ainda, que estão sendo tomadas várias medidas, principalmente as voltadas para a infraestrutura social da cidade – como construção de shoppings, investimentos em moradia, parques ecológicos e de lazer, além das áreas de saúde, educação e segurança – para evitar que o processo de desindustrialização cause maiores impactos à cidade.
Fonte: Sindicato dos Metalurgicos de Betim


