A verve inventiva e mordaz de Cazuza permanece atual 25 anos após sua morte

Nesta terça-feira, 7 de julho, fazem 25 anos que o Brasil perdeu a inventividade e a irreverência do cantor e compositor carioca Cazuza, morto em 1990, vítima da Aids. Como acontece com os grandes autores, a sua obra permanece viva e atual, assim como suas reflexões sobre o mundo, a vida, o amor, a paz, a liberdade e o respeito à dignidade humana. Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, nasceu em 4 de abril de 1958 em uma família da classe média carioca e se tornou uma referência do rock nacional na juventude, como vocalista e líder da banda Barão Vermelho.

No Barão ele já revelava sua inteligência poética e sua veia crítica à hipocrisia de uma sociedade conservadora e preconceituosa. Com seu estilo despojado e rebelde, criou canções que falam ainda hoje aos corações e mentes da juventude. O poeta do rock brasileiro, como era chamado, escreveu letras mordazes contra o autoritarismo, nas quais celebra a vida e a sabedoria.

Pouco antes da abertura política e fim da ditadura militar no Brasil, em 1985, Cazuza já cantava: “Estamos meu bem por um triz/ pro dia nascer feliz” (“Pro dia nascer feliz”), se antecipando ao que estava por vir. E foi neste ano, em que o país começava a respirar ares democráticos, que o artista partiu para carreira solo. Seu grande ídolo na MPB foi outro Agenor, de codinome Cartola, um dos maiores nomes de nossa música popular.

A mídia tentou cooptar a juventude na época das manifestações de 2013 com músicas de Cazuza, mas não colou, devido ao forte teor crítico ao capitalismo e à própria mídia contido em  suas letras, como se vê, por exemplo, na música “Brasil” (Cazuza / George Israel / Nilo Romero, de 1988), que diz: “Não me sortearam/A garota do Fantástico/Não me subornaram/Será que é o meu fim?/Ver TV a cores/Na taba de um índio/Programada/Pra só dizer ‘sim’, ‘sim’”.

Em um dos seus maiores sucessos, “Burguesia” (George Israel / Cazuza / Ezequiel Neves, 1989), Cazuza faz um ataque contundente à classe média brasileira: “A burguesia fede/A burguesia quer ficar rica/Enquanto houver burguesia/Não vai haver poesia”. Nada mais atual. Em especial se olharmos para a presente legislatura da Câmara dos Deputados, em que vale tudo para que prevaleça a vontade da bancada da bala e dos fundamentalistas evangélicos. Algo muito sombrio ronda e ameaça a vida democrática no país.

Inclusive ele se declarou socialista numa entrevista a Jô Soares, ainda no SBT, e disse que num país como o Brasil não podia ser diferente. Suas canções ainda tocam a alma de todos os que acreditam no amanhã. Obras como “Todo Amor que Houver Nessa Vida”, “Maior Abandonado”, “Bete Balanço”, “Codinome Beija-flor”, “Ideologia”, “O Tempo Não Para”, “Faz Parte do Meu Show”, “Vida Louca Vida” estão na história da MPB.

Deixou um legado fundamental e sua vida foi para as telas do cinema no filme O tempo não para, da cineasta Sandra Werneck. “Cazuza era um homem apaixonado pela vida e com ela nutria sua poesia. E, com sua poesia, se entregava ao amor”, diz Werneck.

Em homenagem aos 25 anos de sua morte, estão previstos a reedição de livros sobre Cazuza e o lançamento de um álbum com canções inéditas que estão sendo musicadas por artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rogério Flausino e Baby Consuelo, entre outros. A produção do disco é de Paula Lavgine e ele deve ser lançado até o final deste ano.

Por Marcos Aurelio Ruy – Portal CTB 

 

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