Muito popular e amado, Grande Otelo recebe merecidas homenagens em seu centenário

O pesquisador Sérgio Cabral escreveu “tenho Grande Otelo na conta de um personagem de imenso destaque na história da cultura brasileira, como um cidadão de origem modesta, negro, feio, que venceu tranquilamente todos os preconceitos para se transformar numa figura indispensável na história da cultura popular do Brasil”.

A lembrança de grande parte dos 125 títulos nos quais ele atuou no cinema e na televisão permanecem na memória. Identificação com o imaginário popular tão grande a que o jogador Mané Garrincha experimentou no futebol. Tanto um quanto o outro representam a cara e a alma do brasileiro.

Entrevista ao programa Vox Populi, TV Cultura, em 1978:

 

Grande Otelo completaria 100 anos neste domingo (18) se não tivesse morrido em 26 de novembro de 1993 aos 78 anos de parada cardíaca. Ele desfilou seu talento no teatro, rádio, cinema e mais tarde na televisão.

Já em 1926, com apenas 11 anos integrou a Companhia Negra de Revistas, que tinha Pixinguinha como maestro e Donga como um dos músicos. Nos anos 1930 fez sucesso no Teatro de Revista. Fez também radionovelas, antes de o Brasil conhecer a telinha da TV.

No cinema, protagonizou dezenas de comédias, muito em voga na época. Com Oscarito marcou uma das mais importantes duplas da comédia cinematográfica nacional. Também foi sambista e poeta.

Logo ele se transformou em uma das grandes estrelas da Atlântida, companhia cinematográfica carioca, que teve grandes produções nos anos 1940 e 1950. Grande Otelo fez “Moleque Tião” (1943), de José Carlos Burle, primeiro grande sucesso da companhia.

Com Oscarito protagonizou “Este Mundo é um Pandeiro” (1946) de Watson Macedo, “Três Vagabundos” (1952) de José Carlos Burle, “A Dupla do Barulho” (1953) e “Matar ou Correr” (1954) de Carlos Manga.

Em uma das primeiras denúncias do racismo existente no Brasil, Grande Otelo atuou no filme “Também Somos Irmãos” (1949), de José Carlos Burle, ao lado de Ruth de Souza.

Sua veia artística sempre esteve ligada à sua negritude e a um profundo sentimento de brasilidade. Tanto que o cineasta norte-americano quis levá-lo para os Estados Unidos, mas ele permaneceu no país.

Imperdível sua interpretação do anti-herói no filme Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro Andrade. Otelo faz o herói negro que se transformaria em branco, interpretado por Paulo José. Numa rara e perfeita simbiose entre a película e o livro de Mário de Andrade. Grande Otelo ganhou o prêmio de melhor ator do ano pelo filme.

Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade:

Também participou de obras importantes do Cinema Novo como o clássico “Rio, Zona Norte” (1957) de Nelson Pereira dos Santos, considerado o filme que inaugurou o movimento que revolucionou a arte cinematográfica brasileira.
Na TV iniciou carreira na extinta TV Tupi, pioneira no país. Em 1965 foi contratado pela Globo, participando de inúmeras novelas e programas humorísticos. “Grande Otelo não foi só um ator de cinema: era um multiartista”, diz o produtor Breno Lira Gomes.

A sua popularidade já pode ser conferida no carnaval do ano passado quando a escola de samba Santa Cruz prestou homenagem ao ator com o enredo “O Pequeno Menino que se Tornou Grande Otelo”.

O cinema Caixa Belas Artes, de São Paulo, apresenta a mostra “O Maior Ator do Brasil – 100 Anos de Grande Otelo” com 23 filmes com o ator. Até a quarta-feira (21) a mostra pode ser conferida, os ingressos para cada sessão custam R$ 14 (inteira).

No domingo (18), aniversário do ator, após a exibição de “Nem tudo é verdade” (1985), às 16h, a atriz Helena Ignez fala com o público sobre a experiência de atuar com Grande Otelo e a sua importância para o cinema e cultura brasileira.

É de Chuá (1958), de Victor Lima:

 

O Canal Brasil apresenta a Mostra Centenário Grande Otelo com a exibição de dez filmes com o ator mineiro. Nesta sexta-feira (16), o canal exibe “Rio Zona Norte” e “Vai que é Mole” (1960), de J. B. Tanko, na quinta-feira (22), ambos às 19h, entre outros.

Em sua tese na Escola de Comunicação e Artes da USP, Luis Felipe Kojima Hirano sustenta que “a biografia e a obra deste artista contribuem para pensar diferentes momentos do cinema brasileiro, por um lado, e refletir sobre as relações raciais, suas intersecções com a questão de gênero e o próprio corpo dos artistas (negros ou brancos), por outro, observando então como estes elementos são reinterpretados conforme a lógica do campo cinematográfico”.

As merecidas homenagens se espalham pelo país em memória ao talento desse enorme representante da cultura brasileira. Grande Otelo permanece vivo na memória por encarnar o Brasil como poucos artistas.

Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB

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