Desde 2003 a Sociedade dos Observadores do Saci (Sosaci) difunde a proposta de transformar o dia 31 de outubro em Dia do Saci. “Pensamos em criar esse dia para contrapor à invasão do Halloween e escolhemos o Saci porque ele é o mito brasileiro mais conhecido”, diz o jornalista e escritor Mouzar Benedito.
Além da Sosaci o personagem da mitologia brasileira tem outro defensor de seu dia. Na Câmara dos Deputados há o Projeto de Lei 2.762, de 2003, de Chico Alencar (PSol-RJ) pela criação do Dia do Saci em 31 de outubro.
A questão de se comemorar o Dia do Saci na mesma data em que os norte-americanos comemoram o Dia das Bruxas remete à discussão sobre o papel da cultura na sociedade. “Essa invasão cultural que o império promove não é ingênua”, afirma Mouzar.
Ele cita o livro “O Imperialismo Sedutor”, de Antonio Pedro Toto, que mostra como os artistas norte-americanos faziam “relatórios para os militares de seu país sobre o que viam aqui e como utilizar dos meios de comunicação e da cultura para dominar nosso país”, acentua.
Mouzar explica que em toda a história do Brasil e da América Latina a cultura foi utilizada para a dominação. “A primeira coisa que os colonizadores espanhóis e portugueses fizeram foi destruir a cultura dos povos que aqui viviam”, diz.
“Eles transformam em demônios todos os traços da cultura indígena para impor a cultura deles como sendo superior. Então quem acreditar nisso já está dominado”, reforça. Ele cita ainda que os povos indígenas que habitavam estas bandas passaram a acreditar na supremacia branca, vendo os europeus como invencíveis até na guerra.
Trazendo o debate para os dias atuais, Mouzar explica que o capitalismo procura transformar tudo em cultura de massas e comércio. “Todos os dias, os meios de comunicação demonizam a cultura nacional e popular como algo que não tem valor”, afirma.
O estudioso da cultura brasileira acredita que a cultura pode transformar e por isso “é muito importante haver debate e projetos que disseminem a nossa cultura nas escolas e nos meios de comunicação, mesmo nadando contra a corrente, como fazemos na conjuntura atual de intolerância, preconceito e ódio ao povo e ao país”.

Ele conta que em uma reportagem da revista IstoÉ, o repórter perguntou a um jovem se coma comemoração do Halloween ele não estava sendo norte-americano demais e a resposta foi: “mas quem não quer ser?”
Mouzar cita também a sua coleção de livros “Mitologia Brasílica” sobre todos os personagens da mitologia brasileira. “A maioria dos nossos mitos são de origem indígena e como tais defensores do meio ambiente”, lembra.
“O Curupira é defensor da floresta, porque a floresta não vive por si só, ela precisa dos animais para se manter”, diz. “A Iara, por exemplo, é protetora dos animais que vivem na água”, complementa.
Por isso, ele diz que os mitos nacionais permanecem atuais. Porque “os animais precisam de água limpa para viver”. Então, “precisamos de muitas Iaras para limpar o Rio Tietê, assim como todos os rios que banham as grandes cidades, que já não têm mais vida”, afirma.
Ela explica ainda que o Saci é o mito nacional mais emblemático e por isso foi escolhido para se contrapor às bruxas do Norte.
Originalmente pertencente à mitologia indígena, o Saci foi “transformado em demônio pelos colonizadores, inclusive ganhando a cor negra para tentar diminuí-lo ainda mais”, reforça. Ele conta que quando os senhores queriam saber quem começou uma rebelião na senzala, os negros diziam que foi o Saci.

Acontece que os escravos se afeiçoaram ao mito e começaram a usá-lo para fugir de punições dos senhores. “Uma escrava quando errava a mão, culpava o Saci por ter jogado sal na comida”, diz Mouzar.
Para ele, o Dia do Saci é importante justamente para ensejar o debate sobre o papel que a cultura pode desempenhar numa sociedade de classes. “Ainda mais numa época em que as ideias burguesas dominam o cenário com ódio, intolerância e preconceito”.
Marcos Aurélio Ruy – Portal CTB


