A nova ofensiva do governo Trump contra o Brasil e a defesa da soberania nacional

Por Umberto Martins
O anúncio de novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros e os ataques desferidos por autoridades norte-americanas contra o PIX, sistema de pagamentos que se tornou referência internacional em inovação financeira, revelam que a pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil ultrapassa os limites do comércio e da diplomacia convencional. Somados à recente decisão de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, esses movimentos compõem uma mesma estratégia de intimidação econômica, política e geopolítica dirigida contra a soberania nacional.Apresentada sob o discurso do combate ao crime organizado, a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas cria mecanismos que podem servir de pretexto para pressões diplomáticas, sanções econômicas, bloqueios financeiros e outras formas de intervenção externa. O combate à criminalidade é uma necessidade real e urgente, mas cabe exclusivamente ao povo brasileiro e às instituições nacionais enfrentá-lo. Nenhuma potência estrangeira possui legitimidade para transformar nossos problemas  domésticos em instrumentos de ingerência.

Quinta coluna

O aspecto mais revelador dessa ofensiva é a participação ativa de setores da extrema direita brasileira. O anúncio da medida ocorreu após encontros do senador Flávio Bolsonaro com o presidente Donald Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio. O episódio não pode ser dissociado do contexto político nacional, marcado pela aproximação das eleições presidenciais e pelo desgaste do bolsonarismo em razão de sucessivos escândalos e investigações.

Não se trata de um fato isolado. A tentativa de impor tarifas punitivas contra produtos brasileiros, as sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e a classificação de organizações criminosas nacionais como grupos terroristas integram um mesmo movimento de pressão sobre o Estado brasileiro. Em todos esses episódios aparecem, direta ou indiretamente, setores políticos internos que atuam como aliados dos interesses de Washington.

Contexto histórico

A ofensiva ocorre em um contexto regional de crescente intervenção dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe. Ao longo das últimas décadas, Washington utilizou diferentes justificativas — combate ao narcotráfico, guerra ao terrorismo, defesa da democracia ou dos direitos humanos — para ampliar sua influência política e estratégica sobre países da região.

Cuba continua resistindo heroicamente a um bloqueio econômico criminoso imposto com o propósito de asfixiar o projeto revolucionário. A Venezuela enfrenta sanções, teve um presidente sequestrado e tentativas de isolamento internacional, acompanhadas de execuções extrajudiciais (assassinatos) no mar do Caribe, feitas sempre à margem do Direito Internacional. Na Colômbia, a militarização associada à chamada guerra às drogas ampliou a presença estratégica norte-americana o presidente do país, Gustavo Petro, foi alvo de ameaças de Donald Trump. No México, o problema dos cartéis é frequentemente utilizado como instrumento de pressão sobre a política interna do país. A situação brasileira deve ser compreendida nesse mesmo quadro regional.

Ao mesmo tempo, a disputa ganha contornos mais amplos quando observada à luz da crise da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial, ancorada na hegemonia de Washington, agora em franca decadência. A ascensão da China, o fortalecimento do Brics e o deslocamento do dinamismo econômico para a Ásia desafiam a hegemonia norte-americana. Diante desse cenário, os Estados Unidos procuram preservar sua influência global e reafirmar o controle sobre áreas estratégicas, entre elas a América Latina e Caribe, considerados como mero quintal do império.

Doutrina Monroe

É nesse contexto que ressurge, sob novas formas, a velha Doutrina Monroe, segundo a qual os destinos da região deveriam permanecer sob a tutela imperialista de Washington. O combate ao crime organizado, assim como as críticas ao PIX e à política comercial do Brasil, funcionam como instrumentos de uma estratégia mais ampla de contenção da autonomia nacional e dos projetos de integração e cooperação que escapam à influência norte-americana, bem como de apropriação das nossas riquezas, a exemplo do que a Casa Branca fez com o petróleo venezuelano.

Os interesses em jogo são evidentes. O Brasil possui enormes reservas de petróleo, minerais críticos e terras raras indispensáveis à transição energética e tecnológica em curso. Além disso, desempenha papel relevante no Brics e na construção de alternativas à ordem econômica internacional dominada pelo dólar e pelas instituições controladas pelas grandes potências ocidentais.

A ofensiva também ocorre em meio ao crescimento da extrema direita e ao acirramento das lutas de classes e conflitos internacionais. No caso brasileiro, o neofascismo liderado pelos bolsonaristas combina autoritarismo, discurso antidemocrático e uma profunda orientação entreguista, apesar da falsa retórica nacionalista que procura exibir. A convergência entre interesses estrangeiros e setores da extrema direita nacional constitui uma ameaça concreta à soberania, à democracia e aos direitos sociais.

Digitais imperialistas

A agressão dos EUA não constitui novidade. O apoio que concederam ao golpe militar de 1964 é amplamente documentado. As digitais imperialistas também ficaram impressas no golpe de 2016, precedido pela espionagem contra a presidenta Dilma Rousseff e o lawfare patrocinado pela Lava Jato, que foi instruída pelos serviços secretos estadunidenses. O golpe resultou na destruição de direitos trabalhistas, desnacionalização de importantes setores da economia e eleição do neofascista Jair Bolsonaro.

Por isso, a discussão em curso vai muito além da segurança pública. O que está em disputa é o direito do povo brasileiro de decidir soberanamente seu destino, controlar seus recursos estratégicos e definir seus próprios caminhos de desenvolvimento.

É fundamental que as forças democráticas, populares e patrióticas ampliem o debate sobre o significado dessa nova ofensiva, que não deve ser desprezada. O Brasil tem o direito e o dever de combater o crime organizado com seus próprios instrumentos, fortalecendo suas instituições e preservando sua independência. Nenhuma potência estrangeira pode se arrogar o direito de tutelar o país ou utilizar seus problemas internos para justificar mecanismos de pressão, chantagem e intervenção.

A defesa das riquezas nacionais, da democracia, dos direitos sociais e da soberania nacional constitui uma única e mesma luta. Quem deve decidir sobre o petróleo, as terras raras, os minerais críticos e o futuro do Brasil é o povo brasileiro. As forças que ameaçam a soberania nacional são as mesmas que atacam os direitos sociais, enfraquecem a democracia e subordinam os interesses do país a projetos externos.

No caminho desta luta estratégica em defesa da pátria e do povo brasileiro as eleições convocadas para outubro serão decisivas. É vital desmascarar e derrotar a extrema direita, reeleger Lula e ampliar a presença das forças democráticas e progressistas no Congresso Nacional, governos e legislativos estaduais.

Embora o anúncio de Trump tenha sido festejado pela extrema direita, não é pouco provável que ao longo do tempo a iniciativa também se revele um tiro no pé (como foi o tarifaço), na medida em que desmascara o falso patriotismo e escancara a vocação entreguista do corrompido Clã Bolsonaro.

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