Um grupo de velhas potências em decadêmcia

Por Umberto Martins

Por força do hábito, e também ignorância e desleixo com a verdade dos fatos, a mídia hegemônica continua se referindo ao G7 (Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Canadá) como o grupo dos sete países mais industrializados no mundo.

Está é uma verdade do passado, uma ideia que teve sua época, mas caducou. Já não corresponde aos fatos.

A economia mundial sofreu notáveis transformações ao longo dos últimos anos. Silenciosamente, o desenvolvimento desigual das nações alterou a geografia econômica configurada após a Segunda Guerra Mundial sob hegemonia dos EUA, reforçada com o fim da URSS.

Segundo estatísticas do Banco Mundial divulgadas pela Safeguard Global, os sete países mais industrializados do mundo são, pela ordem, os seguintes (dados de 2024 e 2023):

China – Valor agregado pela indústria ao PIB (em 2024): US$ 4,66 trilhões, ou 27,7% da participação global

Estados Unidos –  Valor agregado pela indústria ao PIB (2024): US$ 2,91 trilhões, ou 17,3% da participação global

Japão – Valor da produção total da indústria (2024): 867 bilhões de dólares, ou 5,15% da participação global

Alemanha –  Valor agregado pela indústria ao PIB (2024): 830 bilhões de dólares, ou 4,93% da participação global

Índia – Valor da produção total da indústria (2024): 490 bilhões de dólares, ou 2,91% da participação global

Coreia do Sul – Valor da produção total da indústria (2023): 416 bilhões de dólares, ou 2,47% da participação global

México – Valor da produção total da indústria (2024): 364 bilhões de dólares, ou 2,16% da participação global.

Do grupo de nações imperialistas que compõem o G7 apenas três permanecem entre as sete economias mais industrializadas do mundo, sendo que da velha e capenga Europa só a Alemanha mantém o status, embora com menos exuberância e vigor que algumas décadas atrás.

Deslocamento do poder econômico

A mudança é notória e muito sugestiva sobre o deslocamento do poder econômico mundial do chamado Ocidente para o Sul Global, com destaque para os países asiáticos:  China, Índia e Coreia do Sul estão entre os sete mais industrializados, ao lado de um emergente latino-americano, o México.

A transformação mais relevante e extraordinária, em matéria de geopolítica, está estampada no topo do ranking: a ascensão vertiginosa da China ao primeiro lugar e o declínio também espetacular dos Estados Unidos para o segundo.

Aqui é preciso notar que a qualidade do fenômeno é também influenciada pela quantidade refletida no valor agregado pela indústria na economia. A nova potência asiática não só superou os EUA, como agora produz um valor bem superior ao do rival: US$ 4,66 trilhões, o que corresponde a 27,7% da produção global, contra US$ 2,91 trilhões.

A ideia de que o G7 reunia as sete economias mais industrializadas e mais poderosas do mundo traduzia o consenso entre os observadores de que a indústria é o carro chefe da economia, e por extensão, do desenvolvimento e do poder relativo das nações na geografia econômica e política global.

Uma verdade obscurecida

O advento do neoliberalismo, o avanço da terciarização, a financeirização da economia e as ilusões com o exuberância do dólar conspiraram para que esta verdade fosse obscurecida. Na realidade, o valor econômico é uma propriedade das mercadorias, de forma que a produção de valor é essencialmente produção de mercadorias e ocorre principalmente na indústria.

A China é hoje a maior credora do mundo e também dona dos quatro maiores bancos do mundo (todos eles estatais), mas sua liderança econômica e projeção internacional tiveram origem no formidável desenvolvimento da indústria, produção de mercadorias e exportações –  e são ancoradas nisso.

O ranking atual dos países mais industrializados do mundo sugere que o G7 é um grupo de velhas potências em decadência. Hoje tampouco forma um grupo politicamente compacto, está dividido em relação à guerra no leste europeu e outros temas.

Necessidade histórica

Por outro lado, a reconfiguração da geografia econômica mundial desperta objetivamente a necessidade histórica de uma nova ordem internacional para a qual o mundo parece estar caminhando, num processo de transição contraditório e conturbado. 

Os EUA perderam a liderança econômica, fenômeno que transparece nas estatísticas sobre o valor da produção industrial e comércio exterior, mas os imperialistas de Washington ainda têm poder suficiente para agredir, ameaçar e chantagear outros povos e nações.

Não querem abrir mão da hegemonia, de modo que recorrem cada vez mais à supremacia militar, sanções e guerras híbridas para impor sua vontade aos mais fracos, atropelando em várias regiões do mundo, e notadamente na América Latina e Caribe, o direito das nações à autodeterminação.

A política externa dos EUA é orientada pela obsessão de deter a qualquer custo a ascensão da China e do Brics, um objetivo insensato e irracional que amplia o cenário global de insegurança e instabilidade e tende a agravar os conflitos internacionais e o risco de uma Terceira Guerra Mundial.

Decadente e dividido, o G7 não tem resposta para os desafios que a civilização humana enfrenta nesta época crítica.

Foto: Ricardo Stuckert/PR

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