Por Marcos Aurélio Ruy
Parafraseando William Shakespeare na peça Hamlet, onde diz “ser ou não ser eis a questão”, porque o teimoso técnico da seleção brasileira masculina de futebol nesta Copa do Mundo tenta justificar a não inclusão do jogador Endrick como titular, taxando-o como “desobediente”.
Mais uma vez um técnico europeu, que só dirigiu equipes europeias, escolhido como o melhor do mundo pela mídia europeia, vem desdenhar do futebol brasileiro. Esquecendo de que cabe a um dirigente, em qualquer área da vida, saber usar as qualidades e mais ainda os defeitos de seus comandados a favor do coletivo. E futebol é um esporte coletivo.
Como escreveu Chico Buarque “vence na vida quem diz sim”, numa canção censurada pela ditadura porque, segundo o próprio Chico, o censor encasquetou com esse verso e então o compositor sugeriu colocar no lugar “vence na vida quem diz não”, o resultado foi a censura completa da obra.
Chico Buarque, que completa 82 anos nesta sexta-feira (19), é um dos mais desobedientes autores brasileiros. Sempre contestando o status quo em defesa da liberdade e de uma sociedade mais igualitária.
E, com o tema é futebol, não se pode esquecer do brilhantismo de Garrincha (1933-1983), quando numa preleção do técnico Vicente Feola (1909-1975) à véspera do jogo da seleção brasileira contra a da então União Soviética na Copa do Mundo de 1958.
Feola instruiu Nilton Santos a lançar a bola para Garrincha que deveria driblar o seu marcador, passar pelo jogador da cobertura deste e cruzar para Vavá (1934-2002), o centroavante rompedor, marcar o gol.
E Garrincha numa tirada inusitada pergunta ao técnico: : “Tudo bem, seu Feola, mas o senhor já combinou com os russos?”. A ironia do Garrincha, que dispensa explicações, ganhou as ruas sempre quando alguém apresenta um planejamento onde se ignora o que pode não funcionar nesse plano.
Essa questão da desobediência vem se apresentando na arte e na vida desde sempre. Como o termo “desobediência civil” cunhado pelo escritor estadunidense Henry David Thoreau em um ensaio de 1849. Thoreau defendia que a consciência de uma pessoa vem antes da obediência ao Estado. Portanto, não se deve obedecer a leis que prejudicam a maioria. Na democracia burguesa a desobediência civil é vista como interessante quando defende a propriedade privada.
Outra vez em que o termo desobediência estampou as páginas da mídia, foi quando o piloto de Fórmula 1, Rubens Barrichello, obedecendo a ordem de sua equipe, a Ferrari, deixou Michael Schumacher passar no finalzinho do GP da Áustria, em 2002, para garantir o campeonato antecipado ao piloto alemão e à sua equipe. Barrichello, criticado por muitos, sobrepôs o interesse coletivo ao individual.
Voltando à Copa de Mundo de futebol masculino e à seleção brasileira, comandada pelo italiano Carlo Ancelotti, a que se atender o clamor popular e escalar o Endrick como titular para que esse jogador com sua garra, demonstrada em campo, possa tirar a seleção brasileira da mesmice e que passe a disputar as partidas com a disposição necessária para vencer e, assim, nunca mais se repita um 7 x 1 como ocorreu em 2014 em solo brasileiro. Até porque como canta Belchior (1946-2017) “sempre desobedecer, nunca reverenciar”, na canção Como o Diabo Gosta.


