Emilio Rodas denuncia que governo dos EUA tem fortalecido os setores mais radicais da direita (Redes sociais)
Governo pró-EUA que já havia duplicado o preço da gasolina e triplicado o do querosene extinguiu na sexta-feira o câmbio fixo que vigorava desde 2011, arrochando o poder aquisitivo dos salários em cerca de 40%, denunciou Emilio Rodas. “Não temos mais um Estado que proteja os cidadãos ou pense no país”, enfatizou
Destacada liderança vinculada historicamente ao Movimento Ao Socialismo (MAS), Emilio Rodas, vice-ministro de Autonomias Departamentais da Bolívia (2015) e vice-ministro de Emprego, Serviço e Cooperativas (2019) – durante a presidência de Evo Morales – e vice-ministro de Regime Interior e Polícia (2020) – na de Luis Arce – levantou a voz em defesa da soberania e do desenvolvimento, denunciando que o governo de Rodrigo Paz colocou em marcha “a destruição de tudo o que representava os pilares estruturais do processo de mudança”.
Resgatando o acordo feito por Evo com setores da burguesia nacional, “fortalecidos nesses 14 anos de transformações”, Emilio Rodas assinalou ter sido esta aliança que permitiu ao país “quadriplicar o tamanho da sua economia e multiplicar as oportunidades, tirando três milhões de bolivianos da pobreza para transformá-los em consumidores”.
“Agora, com o dólar declarado flexível de um dia para o outro, a partir de sexta-feira (29), o poder aquisitivo do salário perdeu cerca de 40%. Isso vai motivando reações, vai provocando uma consciência social de que não temos um Estado que proteja os cidadãos, que pense no país, mas servil, que trabalha para o capital privado e, principalmente, para o capital transnacional”, assinalou.
Nesta entrevista exclusiva, Emilio Rodas alertou que “diante da ingerência dos Estados Unidos, que busca assegurar estrategicamente o seu quintal” e da subserviência de governos como o boliviano, é preciso ajudar nosso povo a construir “uma agenda programática”, “com militância, ativismo, orientação e aprendizado”.
O essencial neste momento, enfatizou, é “frear a privatização e a alienação do patrimônio público, preservar os direitos políticos dos setores populares, proteger o mercado interno e a capacidade de consumo da nossa gente”. Diante de tantas agressões, concluiu, o motivo que unifica os bolivianos neste momento “é a renúncia de Rodrigo Paz”.
Leia abaixo a entrevista concedida por Rodas ao jornalista Leonardo Wexell Severo, com contribuição de Caio Teixeira:
P- A Bolívia durante anos foi uma referência para os movimentos progressistas no que diz respeito aos avanços sociais conquistados. Qual é a sua avaliação do atual momento?
R- É um momento crítico porque foi feito um trabalho muito sistemático, metódico, bem elaborado e bem executado de destruição de tudo o que representavam os pilares estruturais do processo de mudança da Bolívia. O líder do instrumento político foi deixado de fora da cena política dentro do próprio governo do MAS. Destruiu-se a governabilidade a partir desse suposto fracionamento, que era a colocação em marcha do plano de eliminação do campo popular do cenário político por meio de uma tecnoburocracia que se havia incrustado no poder.
Assim, desde dentro do governo, foi destruída a coexistência que se teve durante os 14 anos de Evo, uma coexistência programática com setores da burguesia boliviana que até 2008-2009 haviam sido opositores violentos ao governo. A partir de então foram isolados os setores empresariais dos setores políticos mais radicais de direita, e construídos acordos com essa burguesia nacional que tinha interesses econômicos, mas não era abertamente opositora ao processo. Mais do que isso, se fortaleceu nesses 14 anos, potencializou-se produtivamente. Porque o país mudou nesse período, quadruplicou o tamanho da sua economia, multiplicou as oportunidades, tirou três milhões de bolivianos da pobreza para transformá-los em consumidores.
Havia muitas razões para se estar de acordo, mas tudo isso foi dinamitado, derrubou-se a estrutura política, destruíram-se as organizações sociais, desperdiçou-se a maioria parlamentar que havia sido conquistada com muito esforço e luta. Então, chega-se ao final da gestão de Lucho Arce com o trabalho feito, porque essa tecnoburocracia chegou ao governo para destruir o processo e conseguiu. A ponto do resultado final ser que o líder do processo terminou proscrito, praticamente em prisão domiciliar, com o instrumento político totalmente destruído.
P- O trágico resultado eleitoral na disputa presidencial comprova esta análise.
R- A versão que eles [Arce e seus aliados] apresentaram obteve 3% e as outras oportunidades do campo popular, do movimento Evo Pueblo terminou proscrita do processo. Então, a tarefa que essa tecnoburocracia funcional à restauração neoliberal veio fazer foi cumprida à risca.
Qual o resultado disso? Temos um governo de direita. Não temos presença parlamentar do campo popular, as organizações sociais estão totalmente fragmentadas ou divididas. Nesse cenário, sem representação política, sem estrutura orgânica, sem acordos programáticos, de maneira instintiva partiu-se para a resistência ao desmantelamento do Estado Plurinacional, ao desmantelamento dos princípios e valores que foram construídos nesses 14 anos de processo de mudança.
Porque não lutar implica em abandonar ou restaurar quase mecanicamente o estado anterior a 2006, aquele estado neoliberal onde o capital transnacional exercia a propriedade de toda a riqueza nacional, onde as empresas estratégicas do Estado eram subsidiárias das grandes transnacionais.
P- Qual era a situação da Bolívia quando o presidente Evo Morales chegou à presidência?
R- Tudo o que Rodrigo Paz diz sobre uma suposta base de hidrocarbonetos deixada para Evo é mentira, pois o país todo estava em mãos estrangeiras: Repsol, de Espanha; Total, de França; British Gás, da Inglaterra; Enron, de Estados Unidos; Petrobras, do Brasil. Ou seja, todo o patrimônio hidrocarbonífero, no que diz respeito às suas reservas, infraestrutura, modelo de negócio, tudo estava com transnacionais. Da mesma forma as telecomunicações, que eram de uma empresa italiana; a eletricidade era de duas empresas norte-americanas; a ferrovia era de uma empresa chilena, Cruz Blanca, e a outra parte, a do oriente, era da Wyoming Israel Company. Portanto, todas as empresas estratégicas, o aparato produtivo, estavam com o capital externo.
Por conta disso, um presidente inaugurou o ciclo neoliberal, em 1985, declarando: “A Bolívia está morrendo para nós”. E o último presidente neoliberal, Carlos Mesa, encerrou o ciclo, em 2005, dizendo: “Tenho que estender a mão para pedir esmola”. É para isso que esses setores querem nos fazer retroceder.
P- Os Estados Unidos tentam assegurar estrategicamente o seu quintal fortalecendo duramente esses setores radicais”
R- Claro, eles fazem parte de um esquema internacional, de um novo tempo da política regional latino-americana em que os Estados Unidos tentam assegurar estrategicamente o seu quintal, para que não haja interferências de outras potências do mundo na região, e está fortalecendo duramente esses setores radicais. Nessas condições, partiu-se para essa luta desigual de resistência. É para frear a privatização e a alienação do patrimônio público, para preservar os direitos políticos dos setores populares, para proteger de certa forma o mercado interno e proteger as capacidades de consumo da nossa gente. Nessas condições, com uma liderança política recolhida, temos organizações que foram se aglutinando, mas sem horizonte programático.
P- Diante da complexidade do problema, quem melhor pode responder aos ataques sistemáticos do governo boliviano?
Quem melhor entende o problema é o movimento das seis federações do Trópico de Cochabamba, o bloco onde se encontra o presidente Evo Morales, mas com a Federação Túpac Katari, que é a quem gera maior tensão. Porque se movimenta em torno de La Paz e El Alto, exercendo uma pressão crítica sobre o próprio poder político. Aqui em Santa Cruz, houve uma paralisação de 36 dias no ano de 2022 e em La Paz nem ficaram sabendo.
Historicamente, todo ano, nos meses de janeiro e fevereiro, a Central Operária Boliviana (COB) apresenta uma pauta de reivindicações [pliego petitório] ao governo, reunindo as principais demandas de todos os setores filiados. Isso tem a ver com direitos trabalhistas, aumento salarial, funcionamento dos sistemas de saúde e educacional. O que o Estado tem feito – desde antes de Evo – era receber essa pauta, instalar um mecanismo de negociação, uma mesa interministerial com os diferentes setores.
P- Defender a essência do Estado Plurinacional derivou no lema unificador que tem sido a renúncia de Rodrigo Paz”
R- No final de abril, chega-se a um acordo geral e, em maio, todos os acordos entram em vigor. Isso não aconteceu este ano quando o governo simplesmente respondeu com uma carta rejeitando 80% das demandas, enquanto enviou os outros 20% para estudo.
Por conta deste comportamento, as organizações se organizaram para defender a essência do Estado Plurinacional, que derivou no lema unificador, que no final de contas tem sido a renúncia de Rodrigo Paz.
P- A agenda deste governo é de completa submissão aos setores agroexportadores. Poderia nos dar alguns exemplos do que isso significa em termos de retrocesso para a economia boliviana?
R- É uma agenda de alinhamento a esses setores empresariais. Declarou, por exemplo, liberdade para exportar tudo o que se quiser. As empresas já não têm restrições de exportação. Com Evo e com Lucho, os empresários precisavam comprovar primeiro o abastecimento interno, demonstrar que o que disponibilizavam para exportar não colocava em risco a segurança do mercado boliviano. Hoje já não existe essa restrição. Hoje podem exportar tudo o que quiserem. Isso afeta diretamente o consumo interno, porque estão exportando e estão desabastecendo.
P- Um desabastecimento similar ao que está ocorrendo na Argentina.
O mesmo que na Argentina. Lá dizem: “Alcançamos recorde de exportação de carne”, mas também estão alcançando recorde na queda do consumo de carne no mercado interno argentino. A Bolívia está exportando para o próprio Brasil de maneira ilegal, porque se busca o melhor preço. Nossos camponeses também não estão conseguindo competir com os produtos da cesta básica, principalmente os importados que vêm do Peru.
Então, há uma situação crítica e não há possibilidade de reverter isso, porque a política do governo está orientada a favorecer esses setores empresariais, liberando o domínio estatal dos recursos estratégicos para transformá-los em livre disponibilidade para o capital transnacional.
Como não havia combustível, duplicaram a gasolina e triplicaram o preço do diesel no país. Imediatamente veio o problema da qualidade da gasolina, pois estavam comprando no mercado externo o que se chama de resíduo, aquilo que fica no fundo do tanque, que nunca se comercializa. Passaram a comprar essa borra [concho – que entope bicos injetores, filtros de combustível e bombas, que não é comercializado por tratar-se de um crime ambiental]. Essa é a “gasolina” que foi comprada, provocando um impacto terrível com milhares de transportadores com os motores estragados. Aqui se presta serviço de mototáxi em muitas cidades, todos prejudicados.
P- E em relação ao aumento do dólar após 15 anos de valor fixo?
R- Saiu-se da fixação do dólar de maneira rígida e permanente. Algo que se manteve durante 15 anos. Sempre quem sustentou o dólar na Bolívia foi o Estado. Agora o dólar foi declarado flexível de um dia para o outro, a partir de sexta-feira (29), com o poder aquisitivo do salário perdendo cerca de 40%. Então, isso vai provocando reações, vai provocando uma consciência social de que não temos um Estado que proteja os cidadãos, que não temos um Estado que pense no país, que temos um Estado servil que trabalha para o capital privado e, principalmente, para o capital transnacional. É essa consciência política que as pessoas vão assumindo, traduzindo-a em fortaleza política, em fortaleza orgânica, em capacidade de mobilização, capacidade de resposta à exposição do modelo neoliberal.
P- Qual o papel dos movimentos sociais e dos partidos progressistas neste embate?
R- Temos que nos reconstruir de novo, passar da resistência virtual à resistência material, participar das assembleias, das ações dos sindicatos, ajudar os companheiros nas mobilizações. O povo nos ensinou que às vezes está muito à frente de nós. Precisamos voltar às bases e ajudar nosso povo a reconstruir suas possibilidades, mas com militância, ativismo, orientação e aprendizado.


