A geopolítica nas eleições de outubro

Por Adilson Araújo, presidente da CTB

A geopolítica sempre foi uma força motriz nas batalhas políticas nacionais. Na história brasileira, as impressões digitais do imperialismo norte-americano ficaram marcadas de forma indelével nos golpes de 1964 e 2016.

Contudo, poucas vezes a ingerência de Washington na política doméstica do Brasil se apresentou de maneira tão explícita e descarada quanto agora. A entrada em vigor do novo tarifaço imposto pela Casa Branca a partir desta quarta-feira (22), é a ilustração mais recente e nítida desse fenômeno, transformando o Brasil no país que enfrentou o maior aumento de alíquotas americanas desde o retorno de Donald Trump ao poder.

Conforme apontam diferentes analistas, a medida carece de qualquer racionalidade econômica fundamental. Diferente da maioria das nações tarifadas por Trump, os Estados Unidos desfrutam de um significativo e crônico superávit comercial nas relações com o Brasil.

No primeiro semestre de 2026, a balança comercial bilateral pendeu a favor de Washington, gerando um déficit de US$ 1,52 bilhão para os brasileiros. Entre janeiro e junho deste ano, as exportações brasileiras para o mercado americano desabaram 13%, somando apenas US$ 17,43 bilhões, enquanto as importações totalizaram US$ 18,95 bilhões.

A corrente de comércio entre os dois países encolheu 12,8%, situando-se em US$ 36,4 bilhões. A verdadeira explicação para essa agressividade reside, portanto, nas esferas política e geopolítica.

Ingerência imperialista

Em primeiro lugar, o tarifaço configura-se como uma interferência direta nas eleições presidenciais brasileiras de outubro. O objetivo central é sufocar a economia nacional para desgastar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pavimentando o caminho para a candidatura da extrema-direita representada por Flávio Bolsonaro.

Trata-se também de uma reação violenta de Washington à decomposição da velha ordem capitalista delineada em Bretton Woods e ao avanço de uma nova arquitetura global liderada pela China e pelo Brics.

Sob o pretexto de “concorrência desleal”, a Casa Branca chegou ao ponto absurdo de atacar o Pix — um sistema de pagamento instantâneo universalmente aclamado. O crime do Pix, aos olhos do império, foi demonstrar eficiência pública fora da órbita de controle do dólar e das bandeiras financeiras americanas.

Tiro no pé

Apesar do tom ameaçador, a estratégia norte-americana tende a se revelar mais um “tiro no pé“, repetindo o fiasco do primeiro tarifaço de Trump, que acabou revertido por tribunais e pela pressão de empresários locais devido ao impacto inflacionário sobre os alimentos. O renomado economista e Prêmio Nobel Paul Krugman alertou que as sanções não atingirão os objetivos políticos desejados e terminarão por fortalecer o governo Lula.

Krugman destaca que o alcance real das taxas é severamente limitado pelos próprios medos da Casa Branca em disparar a inflação doméstica de produtos essenciais como café, carne bovina e suco de laranja.

A análise do Prêmio Nobel é compartilhada por Mônica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics (PIIE). Ela ressaltou que mais de 65% das exportações brasileiras para os EUA ficaram de fora da taxação máxima precisamente porque são insumos críticos para a indústria e o consumo americano.

Indústria é o principal alvo

Desta vez o principal alvo foi a manufatura nacional. Estimativas da CNI apontam que a nova sobretaxa de 25% — combinada a uma tarifa de 12,5% sob alegação de trabalho forçado e resquícios de taxas anteriores — ameaça diretamente mais de 4.100 produtos industriais brasileiros.

O tarifaço penaliza severamente os setores de aço, alumínio, automóveis, calçados e máquinas industriais em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde as exportações para os EUA sofreram retração expressiva. É um ataque direto à produção industrial brasileira.

Retrato fiel da decadência

Ao longo do século 21, o peso relativo dos Estados Unidos na balança comercial brasileira desabou de forma estrutural, acompanhando o declínio histórico de sua hegemonia econômica global perante a ascensão chinesa. Se na década de 1980 o mercado norte-americano respondia por cerca de 20% do comércio exterior do Brasil, no primeiro semestre de 2026 a fatia dos EUA nas vendas brasileiras ao exterior minguou para meros 9,4%, o menor patamar de toda a série histórica.
Indicador Econômico (1º Semestre 2026)

Em contrapartida, p intercâmbio do Brasil com a China representava apenas 1% do comércio brasileiro em 1980. Em 2026, este percentual subiu para 29% da corrente comercial brasileira (importações e exportações).

No primeiro semestre de 2026, as exportações para a China atingiram o recorde histórico de US$ 58,32 bilhões (alta de 21,9%), garantindo ao Brasil um superávit estrondoso de US$ 19,78 bilhões — o equivalente a quase metade de todo o superávit comercial do país no período. O tarifaço de Trump serviu para aprofundar as relações entre Brasília e Pequim.

Os chineses absorveram 69,5% da soja, 68,6% do minério de ferro e 54% do petróleo exportados pelo Brasil. Esses dados são o retrato estatístico irrefutável de uma potência imperialista em declínio, cuja capacidade de coerção econômica está definhando na América Latina e no Sul Global.

Derrotar os lacaios do imperialismo

Nas eleições de outubro, o que estará em jogo vai muito além da escolha de um governante; trata-se da defesa da soberania nacional, da democracia e dos direitos sociais. Dados recentes da ApexBrasil provam a resiliência nacional: a expansão das exportações brasileiras para novos mercados como a própria China, a Europa e a Índia somou US$ 16,1 bilhões no primeiro semestre de 2026, compensando com folga o tombo de US$ 2,6 bilhões sofrido no mercado americano.

Quase 72% das empresas brasileiras antes expostas ao humor de Washington conseguiram migrar para novos destinos comerciais. O Brasil demonstra que tem muito a ganhar ao rejeitar a submissão e aprofundar a estratégia de diversificação de mercados iniciada pelo governo federal, estreitando laços com o Sul Global e consolidando sua posição altiva no BRICS.

Ao alinhar-se cegamente aos ditames de Washington e celebrar punições econômicas contra o próprio país, a liderança neofascista de Flávio Bolsonaro escolhe o lado errado da história e assume o papel de vassalo de uma potência em declínio. Cabe ao povo brasileiro, munido de memória e consciência crítica, enxergar as engrenagens dessa disputa nas urnas e impor uma derrota definitiva aos vendilhões da pátria e lacaios do imperialismo.

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