Por Marcos Aurélio Ruy
Porque Teresa Cristina disse que não canta mais a canção Gol Anulado, de 1976, autoria de Aldir Blanc (1946-2020) e João Bosco, que acaba de completar 80 anos, viraliza na internet um debate sobre a importância de se atentar ao que se está dizendo ou escrevendo. O debate cresceu devido à reação intempestiva à crítica de Bosco em entrevista do Estadão.
Em vez de analisar a crítica, o autor preferiu atacar quem o critica como se ele fosse acima de crítica. Usou o termo censura, como a direita e ainda mais a extrema direita usam para defender qualquer coisa que escrevam ou digam, mesmo incitamento à discriminação, ao ódio e à violência.
Há que se reconhecer sim que a parceria Aldir Blanc e João Bosco produziu relevantes canções da MPB, mas isso não dá direito ao autor de esbravejar taxando o movimento feminista de puramente “identitário” e acentua que o seu ataque é principalmente a setores de esquerda, de gente que “precisa ser medicada”, ou seja dopada para não se pronunciar. Onde está a censura?.
A estrofe criticada é “quando você gritou mengo/No segundo gol do Zico/Tirei sem pensar o cinto/E bati até cansar”. E como defensores do autor afirmam que não se pode analisar uma poesia apenas por um trecho dela, o que tem fundamento, fui ver a letra toda, de uma música que não conhecia. Até porque sempre aprecem “defensores” de autores já com carreira consolidada.
E para meu espanto a situação piorou e muito porque não encontrei a antítese mencionada por Bosco na referida entrevista. E mesmo ele tentando se defender com a dialética de Hegel, me falta capacidade ou talvez medicamentos para encontrar a antítese nessa poesia.
Toda focada na visão do agressor, a segunda estrofe afirma que “três anos vivendo juntos/E eu sempre disse contente/Minha preta é uma rainha/Porque não teme o batente”. Não há nada na letra que esboce uma reação da vítima. Ela não corre, não foge, não grita , não pede para parar. Não se defende de forma alguma. Sua reação inexiste, como a personalidade dela nunca existiu para o agressor.
Porque essa mulher negra só existe para não temer o batente, ou seja, cuidar da casa como é sua obrigação. E o agressor nem se atenta ao fato de que ele em 3 anos de vida conjugal, pois que importância poderia ter os desejos, as vontades e as opiniões dela?
E ainda é boa cozinheira,, jamais companheira porque ela “se garante na cozinha/E ainda é Vasco doente/Daquele gol até hoje o meu rádio está desligado/Como se irradiasse o silêncio do amor terminado”.
Quer dizer que ela não aparece nem aqui para que ela termine o casamento e talvez denuncie o agressor, aí sim feito um gol anulado por falta descabida merecedora de cartão vermelho. E isso mesmo no contexto histórico de 1976.
Porque Chico Buarque sofreu uma crítica de feministas a Com Açúcar, Com Afeto, de 1975 por naturalizar a submissão da mulher e ele explicou o contexto da música e que naqueles anos não se pensava muito sobre esses temas, mas reconheceu e deu razão à crítica das feministas.
Aí a letra se encerra: “Eu aprendi que a alegria/De quem está apaixonado/É como a falsa euforia/De um gol anulado”. Pobre vítima. Mas em nenhum momento ele coloca a vítima como uma pessoa que importe, que tenha sentimentos, opiniões, desejos, vontades e necessidades. Só o sofrimento dele tem importância.
Até porque pior do que um gol anulado é um gol contra e João Bosco fez um gol contra.


