Velhos Bandidos vive os velhos dilemas de uma sociedade etarista que cultua a juventude eterna

Por Marcos Aurélio Ruy Foto: Divulgação

Em cartaz, na Prime Video, o filme Velhos Bandidos (2026) repete a receita do diretor Cláudio Torres (A Mulher Invisível, O Homem do Futuro) de mesclar humor e técnicas cinematográficas hollywoodianas com temáticas brasileiras. Torres não parece preocupado em realizar obras autorais, mas se estabelece no limiar entre a autoria e o entretenimento com maestria.

Com um elenco estelar e longevo, sem muita pretensão a obra debate a dificuldade de envelhecer num país como o Brasil e ainda viver de aposentadoria. Porque os idosos, muitas vezes são vistos como estorvo ou pobres coitados. Até porque o processo de envelhecimento da maioria é muito diferente do envelhecimento dos poucos privilegiados.

Fernanda Montenegro (perto de completar 97 anos) e Ary Fontoura (93 anos) interpretam o casal de aposentados, Marta e Rodolfo, que bolam há anos um plano para assaltar um banco e recuperar a indenização pelo tempo de serviço na empresa onde Rodolfo se aposentou.

Quando de um modo inusitado encontram o casal de jovens Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta), eles veem a possibilidade de executar o plano com a ajuda dos jovens, que vivem de golpes em idosos “indefesos” e ricos.

Além do etarismo, o cineasta coloca em cheque a máxima capitalista que se pode enriquecer com o trabalho, mostrando que as pessoas que vivem de vender a sua força de trabalho procuram maneiras de sobreviver além do minguado salário.

Assim meio os Irmãos Metralha que vivem de tentativas de golpear o multimilionário Tio Patinhas. Como diria Bertold Brecht (1898-1956) sobre quem rouba mais o batedor de carteira ou o banqueiro. E que ninguém enriquece trabalhando porque a riqueza produzida fica nas mãos de poucos como mostra a Oxfam, onde o 1% dos mais ricos detêm quase 25% de toda a riqueza produzida no Brasil e ainda querem mais. Esse é o capitalismo cada vez mais concentrador de rendas e, por isso, o fascismo, a forma superior do capitalismo como diria Lênin (1870-1924).

Trailer oficial de Velhos Bandidos

Quando entra em cena o policial Oswaldo Aranha (Lázaro Ramos), que se une aos velhos bandidos por necessidade de cirurgia em sua filha, aparece o policial corrupto porque o sistema favorece a corrupção e o individualismo, por isso, os personagens buscam solucionar os seus problemas individualmente.

Velhos Bandidos tem uma fotografia que remonta aos quadrinhos de maneira a deixar claro que “a vida não é filme, você não entendeu” como canta Os Paralamas do Sucesso e mais ainda repete Belchior porque “a vida realmente é diferente, quer dizer, ao vivo é muito pior”.

O filme é leve e despretensioso, mas leva a pensar sobre a necessidade de lutas coletivas para a superação do sistema que oprime quem vive do trabalho como única forma de a classe trabalhadora ir não ao paraíso, mas a uma vida com mais repouso e qualidade. Velhos Bandidos vive os velhos dilemas de uma sociedade etarista que cultua a juventude eterna.

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