Secas, queimadas, calor extremo e desmatamento afetam a economia e a saúde da população amazônida; avanço da destruição durante o governo Bolsonaro reforça a importância da proteção ambiental e da luta por trabalho digno
Celebrado em 5 de setembro, o Dia da Amazônia reforça a necessidade de proteger um dos maiores patrimônios ambientais do planeta. A data, porém, não deve servir apenas para lembrar a importância da floresta. É também uma oportunidade para discutir os impactos que a destruição ambiental e as mudanças climáticas provocam sobre a vida da população — especialmente sobre a classe trabalhadora.
Na Amazônia, a crise climática já faz parte do cotidiano. Períodos de seca mais severa, temperaturas elevadas, queimadas e grandes volumes de fumaça interferem no transporte, na produção, na renda e na saúde das comunidades.
Os impactos são particularmente sentidos por trabalhadores que dependem diretamente dos rios e da floresta para sobreviver, como pescadores, agricultores familiares, extrativistas, trabalhadores rurais e comunidades ribeirinhas. Quando os rios baixam, o deslocamento de pessoas e mercadorias fica mais difícil. A pesca é prejudicada, o abastecimento pode ser comprometido e atividades econômicas inteiras sofrem as consequências.
Nas cidades, a fumaça das queimadas agrava a qualidade do ar e aumenta a exposição da população à poluição. Para quem precisa sair de casa diariamente para trabalhar, muitas vezes em atividades externas, não existe a possibilidade de simplesmente se proteger ficando em casa.
A Amazônia sob pressão
Os problemas ambientais enfrentados hoje também são resultado de anos de avanço do desmatamento e de políticas que fragilizaram a proteção da floresta.
Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019–2022), as taxas anuais de desmatamento na Amazônia Legal permaneceram em patamares elevados. Segundo dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foram registrados 10.129 km² de desmatamento em 2019, 10.851 km² em 2020, 13.038 km² em 2021 e 11.594 km² em 2022.
O pico ocorreu em 2021, quando a área desmatada ultrapassou 13 mil quilômetros quadrados — uma das maiores taxas registradas pelo sistema.
O Tribunal de Contas da União (TCU) também apontou problemas na política de combate ao desmatamento e registrou a redução da capacidade de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no período.
A destruição da floresta não é uma questão distante da população. O desmatamento e as queimadas estão associados à degradação ambiental, à piora da qualidade do ar e ao agravamento de condições que tornam a vida e o trabalho mais difíceis na região.
A crise ambiental também chega ao local de trabalho
As mudanças climáticas transformaram a proteção ambiental em uma questão cada vez mais relacionada aos direitos trabalhistas.
A Fundacentro, instituição vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, desenvolve pesquisas sobre os impactos das mudanças climáticas na segurança e na saúde dos trabalhadores. Entre os riscos estudados estão a exposição ao calor, eventos climáticos extremos e os efeitos da poluição atmosférica.
O calor excessivo é especialmente preocupante para trabalhadores que exercem atividades ao ar livre ou realizam esforço físico intenso.
Na prática, isso significa que um trabalhador rural, um pescador, um entregador, um trabalhador da construção civil ou qualquer profissional que passe muitas horas exposto ao sol pode enfrentar uma condição de trabalho cada vez mais desgastante à medida que as temperaturas aumentam.
A crise climática, portanto, não é apenas uma questão de preservação da natureza.
É também uma questão de saúde e segurança no trabalho.
Fumaça, calor e pouco tempo para descansar
É justamente nesse ponto que a discussão sobre a escala 6×1 pode ser incorporada ao debate ambiental.
Não se trata de afirmar que a crise climática criou a escala 6×1. A relação é outra: em um cenário no qual as condições ambientais tornam o trabalho mais desgastante, o tempo de descanso se torna ainda mais importante.
O trabalhador que passa seis dias trabalhando e tem apenas um dia de folga possui menos tempo para recuperar o corpo e a mente, cuidar da saúde, realizar atividades domésticas, conviver com a família e ter momentos de lazer.
Quando, além da jornada, existe exposição ao calor, à fumaça ou a outras condições ambientais adversas, a sobrecarga pode ser ainda maior.
A redução da jornada e o fim da escala 6×1, portanto, precisam ser compreendidos também dentro de uma discussão sobre saúde, qualidade de vida e direito ao descanso.
Descansar não é um luxo. É uma necessidade humana.
O trabalhador não pode pagar a conta da crise climática
A classe trabalhadora está entre os grupos mais expostos às consequências das mudanças ambientais, mas não pode ser responsabilizada pela crise que enfrenta.
Quem depende do salário precisa continuar trabalhando mesmo quando o calor aumenta, a fumaça encobre as cidades ou os rios ficam em níveis críticos.
Por isso, políticas de adaptação às mudanças climáticas precisam considerar as condições concretas de quem trabalha.
É necessário garantir proteção adequada, pausas, hidratação, ambientes seguros e medidas específicas para atividades realizadas sob altas temperaturas ou em locais atingidos pela fumaça. Mas também é necessário discutir o próprio modelo de organização do trabalho.
Não é possível falar em qualidade de vida enquanto milhões de trabalhadores permanecem presos a jornadas que deixam pouco espaço para viver.
Preservação ambiental e justiça social
A defesa da Amazônia não pode ser separada da defesa das pessoas que vivem no território.
Preservar a floresta significa proteger rios, comunidades, atividades econômicas e formas de vida construídas ao longo de gerações. Significa também enfrentar o desmatamento ilegal, combater as queimadas, fortalecer a fiscalização e garantir políticas públicas de desenvolvimento que não tenham como preço a destruição ambiental.
O período Bolsonaro mostrou os riscos do enfraquecimento da fiscalização e da política ambiental. Os números do INPE e as avaliações do TCU ajudam a dimensionar o tamanho do problema deixado para trás.
Ao mesmo tempo, a reconstrução das políticas ambientais precisa caminhar junto com a garantia de direitos sociais e trabalhistas.
Não basta preservar a floresta se os trabalhadores continuam submetidos à precarização. Da mesma forma, não é possível falar em desenvolvimento econômico quando o crescimento ocorre às custas da destruição ambiental e da exploração da força de trabalho.
Mais tempo para viver
O Dia da Amazônia também pode ser um momento para ampliar essa reflexão.
A crise climática coloca novos desafios para o mundo do trabalho. Se as condições ambientais estão se tornando mais difíceis, a resposta não pode ser exigir ainda mais produtividade de quem trabalha.
É preciso garantir menos exploração, mais descanso e melhores condições de trabalho.
A luta pelo fim da escala 6×1 se conecta a essa perspectiva: a defesa de uma jornada mais humana, que permita ao trabalhador não apenas trabalhar, mas também descansar, cuidar de si, conviver com a família e participar da sociedade.
A Amazônia precisa ser protegida porque é fundamental para o equilíbrio ambiental e para a vida. E os trabalhadores precisam ser protegidos porque são eles que sustentam a economia e constroem, diariamente, a riqueza do país.
Defender a Amazônia é defender a vida. Defender o trabalhador também.
Neste 5 de setembro, a luta pela preservação da floresta deve caminhar lado a lado com a luta por justiça social, trabalho digno, redução da jornada e pelo fim da escala 6×1.
Porque não existe futuro sustentável com uma floresta destruída — nem com trabalhadores exaustos.
Fontes: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); Tribunal de Contas da União (TCU); Fundacentro/Ministério do Trabalho e Emprego.
Fontes:
Fundacentro — Mudanças climáticas e segurança e saúde no trabalho
Fundacentro — Mudanças climáticas afetam a Saúde e Segurança no Trabalho
Fundacentro — Mudanças Climáticas impactam trabalhadores de atividades a céu aberto


