Por Adilson Araújo, presidente da CTB
A oligarquia financeira, à frente dos setores mais atrasados e reacionários da sociedade brasileira, apostou alto na eleição do miliciano foragido Flavio Bolsonaro e foi derrotada pelo povo. Mas ainda não se deu por vencida e agora quer impor ao novo governo Lula a sua receita indigesta, temperada pela recessão e pela destruição de direitos.
O coro ensurdecedor e monofônico executado pela mídia burguesa sobre a suposta necessidade de um severo ajuste fiscal para equilibrar as contas públicas tem este sentido. O que os proponentes desta via advogam não é uma reestruturação da dívida pública e dos juros pagos aos credores mais ricos — os grandes capitalistas nacionais e estrangeiros, que abocanham metade do orçamento público. Os juros que remuneram o rentista ocioso, incapaz de dar um prego no sabão, são considerados sagrados e imexíveis.
Querem tesourar o SUS, o BPC, as aposentadorias
Querem cortar nas verbas transferidas aos mais pobres, direta ou indiretamente — ou seja, no SUS, nas aposentadorias e pensões, no BPC, nos programas sociais como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e Prouni —, bem como nos investimentos produtivos promovidos pelo Estado. Um cardápio regressivo e recessivo. Alardeiam ainda que é preciso privatizar e entregar tudo que é público ao controle e à exploração dos capitalistas, transformando em mercadoria também a água, a saúde, a educação e tudo o mais.
Afinal, foi isso que o foragido Flavio Bolsonaro prometeu aos oligarcas das finanças e do agronegócio ao anunciar, de salto alto, seu “tesouraço” com corte de R$ 250 bilhões no Orçamento da União. Manifestou publicamente a disposição de entregar aos Estados Unidos nossas reservas de terras raras e minerais críticos, a título de contribuição para a estratégia dos imperialistas de Washington de conter, a qualquer preço, a ascensão da China. Não foi por acaso que o traidor da pátria foi procurar refúgio na terra do Tio Sam.
Projeto da direita foi derrotado
Mas o miliciano, que o imperialismo e a oligarquia financeira queriam conduzir à Presidência da República do Brasil, foi derrotado pelo povo e fugiu na calada da noite temendo ser preso pelos crimes que cometeu e que estão sob investigação da PF — incluindo os R$ 134 milhões do Vorcaro, os R$ 6 milhões pagos pela mansão em Brasília e a sociedade na corrupção com outro fugitivo fora da lei, o picareta Willer Tomaz.
A derrota do filho do golpista Jair Bolsonaro foi, ao mesmo tempo, a derrota da oligarquia financeira, dos latifundiários, do governo Trump (atual chefe do imperialismo americano) e do projeto acalentado por esses personagens. Foi uma vitória da classe trabalhadora e das forças democráticas e populares, cujo projeto de desenvolvimento nacional é bem distinto e, em muitos aspectos, oposto ao das classes dominantes.
O grande protagonista da reeleição de Lula foi o povo brasileiro, que afluiu aos milhões às ruas e compôs o combativo Exército do Lula, que tomou conta das redes sociais e neutralizou as manobras dos donos das big techs, com destaque para a Meta, a favor da extrema-direita. Lula deve sua histórica virada a esta formidável mobilização social, e o êxito do novo governo será alcançado na medida em que contemplar as expectativas que animaram o povo nas ruas. A exemplo da mídia burguesa, a “Faria Lima” apoiou e apostou suas fichas no miliciano e confiava na vitória, daí o mal humor do mercado de capitais na segunda-feira.
Programa democrático e popular
Quem perdeu a eleição não tem autoridade para ditar os rumos da política governamental. Na contramão do ajuste fiscal que as forças derrotadas no pleito presidencial querem impor, os manifestantes que ocuparam as ruas contra a extrema-direita defendem a ampliação dos investimentos públicos, o fortalecimento do SUS e da Previdência Pública, a valorização dos salários, das aposentadorias e o aumento da renda do povo trabalhador, do consumo das famílias e do PIB.
No caminho popular, será preciso mudar os rumos da política econômica, operando uma redução substancial das taxas de juros e spread, reestruturando a dívida pública, regulamentando o Imposto sobre Grandes Fortunas previsto na Constituição, controlando as taxas de câmbio e o fluxo de capitais e adotando uma política fiscal orientada para o crescimento econômico e o desenvolvimento nacional.
Convém ressaltar três questões fundamentais:
1. A defesa da soberania nacional diante do cerco imperialista promovido pelo governo Trump em todo o continente americano, garantindo a propriedade, o controle e a exploração soberana das nossas terras raras e demais riquezas minerais e o fortalecimento das empresas públicas. Reforçar as relações com o Sul Global, o Brics e a aliança estratégica com a China. O governo Lula precisa trabalhar com o objetivo de resgatar o protagonismo da América Latina e Caribe e o projeto de integração soberana, democrática e pacífica dos países da região, em contraposição ao “Escudo das Américas” criado por Washington com propósitos imperialistas;
2. O fortalecimento da democracia, combatendo o golpismo, as Fack News, as big techs, fortalecendo a mídia alternativa e democrática e assegurando espaço para maior participação do povo e de seus representantes na definição das políticas públicas e da política macroeconômica;
3. A preservação e a ampliação dos direitos sociais. Cabe lembrar e reiterar que a valorização do trabalho e o valor social do trabalho são princípios fundamentais e pilares da Constituição Federal de 1988, devendo também ser compreendidos como fontes (e não obstáculos) do fortalecimento do mercado interno e do desenvolvimento nacional.
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil


