Por Marcos Aurélio Ruy Foto: Maria Isabel Oliveira
Vários foram os fatores para a vitória épica do presidente Lula na eleição presidencial de 2026. A campanha do presidente mais agressiva, a criação do canal de WhatsApp exército do Lula, que dominou os algoritmos das redes sociais, os estudantes nas ruas e depois grande parcela da população, mostrando que a presença militante nas redes e nas ruas pode provar que o real resiste como na música de Arnaldo Antunes.
Mas um fator pouco citado, na minha opinião, foi determinante para que em tão pouco tempo a esquerda tomasse as ruas, dominasse as redes e superasse, em grande parte, o medo a que nos submetemos desde o movimento pelo impeachment da presidenta Dilma Roussef. O medo da volta de uma ditadura bolsonarista. E terminarmos como no filme O Aniversário, em cartaz na Prime Video, onde a mudança, tema adotado por Flávio Bolsonaro, seria a valorização dos valores ultranacionais e o poder nas mãos de um único partido, uma única religião, um único pensamento.
Esse medo não veio do nada. Como estamos assistindo, um tanto estarrecidos, os bolsonaristas tentam se impor pela violência, pelo medo. Agridem, xingam, matam. De maneira covarde sempre.
Atacam indígenas no Mato Grosso do Sul, o estado mais violento do país contra os povos originários. Aproveitam-se do momento para se apropriar das terras indígenas. Como perderam a eleição atacam porque sabem que o governo Lula intervirá contra essa ação, aliás já devia ter enviado tropas do Exército para lá e em outros estados onde há violência contra os povos originários.
Imaginem se tivessem vencido a eleição
Empresários ameaçam demitir trabalhadoras e trabalhadores que votaram em Lula, influencers incentivam a discriminação e a violência. Essa é a verdadeira face dos seguidores da extrema direita. Com o candidato derrotado se autoproclamando o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” e depois, não se sabe porque, se rebaixando a “líder do Brasil”.
Lembrando que os Estados Unidos vão às urnas na terça-feira (3) para participar das eleições legislativas de meio de mandato, as chamadas midterms. O que pode mudar a composição do parlamento para os dois anos finais de Trump. A torcida é grande.
A liberdade e a democracia pela qual eles reclamam tanto só serve se atender os propósitos deles e os beneficiarem. Como ironiza Karl Marx (1818-1883) na antologia de artigos reunidas no livro Liberdade de Imprensa (1842), ao mostrar o entendimento sobre liberdade quando um senhor de escravo reclama da “falta de liberdade” de surrar o seu escravo na Inglaterra.
Os bolsonaristas agem dessa forma. Só reclamam da falta de liberdade quando são impedidos de expressar ódio, discriminação e violência. Vale tudo. Até tirar ônibus de circulação em regiões onde Lula teve mais votos. Imaginem se tivessem vencido a eleição.
Paira no ar a ameaça do trapalhão Donald Trump atacar o Brasil exigindo a anulação da eleição democrática que reelegeu Lula, que se transformou em exemplo de resistência no mundo inteiro. E confirma a liderança de Lula no mundo.
A pressão estadunidense pode até ecoar em quintais como a Argentina e na nossa mídia do capital entreguista e vira-lata. Mas não emplaca. Simplesmente porque o Brasil não é a Venezuela e nem Lula é Nicolás Maduro, aliás sequestrado, em território venezuelano, por policiais estadunidenses por causa de petróleo e pelo ouro do país caribenho.
Mas já damos demonstração de resistência. Mais uma vez nas ruas e nas redes para enfrentar e derrotar os “donos do mundo”, as big techs e o presidente dos Estados Unidos, até Trump ser defenestrado como pode acontecer com Benjamin Netanyahu, meio empatado com Gadi Eisenkot, tão sionista quanto ele, na eleição israelense. Netanyahu pode ser defenestrado se a oposição fizer acordo com os partidos árabes.
De qualquer forma, as forças populares retomam as ruas enfrentando o medo e dominando o debate político. Seguir avante é a principal palavra de ordem. Como no samba-enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, do Rio de Janeiro, em 1989: “Liberdade, liberdade! Abra as asas sobre nós. E que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz”.
Mas não a liberdade de surrar trabalhadoras e trabalhadores. A liberdade de se organizar em sindicatos, em partidos políticos e até de escolher a religião que mais agradar. A liberdade de viver sem medo da polícia. Afinal ainda não se fala em tomar os meios de produção.


